Brasil: um novo fôlego na luta contra a corrupção

thumb-membro

Eduardo Passos

Investigador
"O ex-presidente Lula da Silva deixou para Dilma uma difícil batalha contra a corrupção"

Publicado a 4 Outubro 2011 em Relações Internacionais

Na sua última visita a Portugal, no dia 7 de Setembro, o ex-presidente do Brasil, Lula da Silva visitou o Estádio da Luz, em Lisboa, e afirmou que o Brasil irá nos próximos anos receber diversas competições desportivas e que por isso conhecer o know how de entidades desportivas europeias seria muito importante. Pelas próprias palavras de Lula: “não haverá espaço para amadorismo”.

Nesse mesmo dia o Brasil festejava o 7 de Setembro, dia da independência. Contudo, à margem deste dois eventos, um outro acontecimento chamou a atenção pelo número de pessoas envolvidas e pela importância que poderá ter no futuro político do Brasil. Paralelamente às festas do dia independência, em Brasília, cerca 25 mil pessoas fizeram uma manifestação contra a corrupção. O mesmo aconteceu em São Paulo e nas próximas semanas espera-se que mais 35 cidades participem neste movimento que começou nas redes sociais.

Muito daqueles que saíram às ruas estavam com a cara pintada com as cores da bandeira do Brasil, ou com a cor preta, em sinal de luto face à corrupção impregnada nos altos escalões da política brasileira. Este facto remete-nos para o movimento então nomeado de “caras pintadas”, que no início da década de 1990 saiu à rua para pedir o fim da presidência de Fernando Collor de Mello, também envolvido em esquemas de corrupção.

Passado duas décadas após o impeachment de Collor, o Brasil mudou para melhor. A começar pela estabilidade económica, mas também política. A recente eleição de Dilma Rousseff demonstrou aos brasileiros e ao mundo que o Brasil consegue eleger um novo presidente, sem tumultos, de forma legítima, e não tendo a necessidade de provocar uma revolução política ou económica que coloque em causa a vibrante economia do país. Assim, as pessoas que estavam nas manifestações de Brasília e São Paulo não pediam a saída de um governo democraticamente eleito, mas medidas por parte da presidente Dilma Rousseff e do Congresso contra um problema quase crónico no Brasil: a corrupção.

 

O lado negro da herança de Lula

 

Se por um lado o ex-presidente Lula da Silva deixou para Dilma um país economicamente próspero e politicamente estável, por outro lado reservou à sua pupila uma difícil batalha contra a corrupção. Este mal deve-se principalmente à necessidade de agradar a um vasto número de partidos políticos que formam a base aliada do governo no Congresso, e que lutam entre si para conseguirem o maior número de nomeações políticas no governo ou em empresas públicas. É  este  imenso aparelhamento do poder público que dá força aos mirabolantes esquemas de corrupção que são normalmente denunciados pela imprensa.

Lula da Silva durante os seus oito anos de mandato enfrentou muitas denúncias de corrupção. A principal delas, conhecida como o “mensalão”, custou a cassação do seu braço direito, José Dirceu, que também era o principal articular político do governo. Mesmo assim, e apesar de todos os partidos da base governista de Lula estarem envolvidos neste grande esquema de compras de voto no Congresso, o então presidente preferiu concentrar toda a sua atenção e todo o seu discurso para as conquistas sociais e económicas do seu governo. Lula, é verdade, deixou um Brasil economicamente mais próspero, mas nada fez para impedir o crescente descrédito das instituições políticas brasileiras, que são o pilar de uma democracia saudável.

Foi com um sistema político a pedir profundas reformas que Dilma Rousseff assumiu a presidência do Brasil, apoiada por uma base política ainda mais ampla e heterógena, devido ao enfraquecimento da oposição nas última eleições. Isto significa dividir o governo com mais pessoas e fazer outras centenas de nomeações políticas para cargos que supostamente deveriam ser ocupados por técnicos. A partilha foi feita e os esquemas de corrupção voltaram a aparecer. Contudo, e até de forma inesperada, Dilma enfrentou o seu partido, o PT (Partido dos Trabalhadores), o própria Lula, toda a sua base de apoio, e efectuou uma “limpeza”, que já custou o cargo de quatro ministros e de mais de uma dúzia de servidores públicos. Esta atitude de Dilma agradou até os partidos de oposição. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso já afirmou que a presidente Rousseff deveria contar com o apoio do principal partido da  oposição, o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), neste combate contra a corrupção.

A verdade é que Dilma escolheu de forma corajosa um caminho que pode não ter volta. Até pelo seu próprio carácter Rousseff já demonstrou que não gosta de voltar atrás com as suas decisões, por isso ou avança com um plano ambicioso de combate à corrupção ou o seu governo cairá em total descrédito. Avançar com uma reforma política que introduzisse o voto distrital e que reduzisse o número de partidos eleitos parece ser urgente.

Se levarmos em conta que o Brasil em 2014 organiza o Campeonato Mundial de Futebol e em 2016, as Olimpíadas, percebe-se o quão urgente é um plano alargado de combate à corrupção. Caso contrário, e apesar de os brasileiros construírem estádios modernos e uma vila olímpica que impressione os seus visitantes, muitos milhões de reais  perder-se-ão devido à corrupção. Milhões que deveriam ser utilizados em sectores vitais para o desenvolvimento do país: educação, saúde e infraestruturas.

 

Um movimento à margem do aparelho

 

Quando olhamos para os oito anos do governo Lula e os escândalos de corrupção a ele associados podemos tirar duas conclusões: o crescimento económico e a expansão dos programas sociais criaram uma blindagem favorável ao governo em relação à maioria da população das classes mais baixas e, por outro lado, contou com a conivência ideológica de uma outra parte da sociedade, principalmente, os sindicalistas, os movimentos sociais e até as universidades.

O que traz de novo estas manifestações contra a corrupção é que nenhum dos sectores acima enunciados se fizeram notar. Não se viram sindicalistas radicais, integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) e nem estudantes associados à UNE (União Nacional dos Estudantes). Os milhares de pessoas que saíram às ruas repudiam o actual estado da política brasileira, mas não o fazem por motivos políticos ou ideológicos.

Parece começar a surgir no Brasil, essencialmente entre uma classe média cada vez mais numerosa, instruída e com maior capacidade económica, uma consciência dos problemas de fundo do país e que, além disso, parece não estar disposta a compactuar com o relativismo moral e ético que é predominante dentro de parte da classe política brasileira.

Duas décadas depois, estes “caras pintadas” regressam às ruas não para exigir a queda do governo ou qualquer revolução utópica. Solicitam ter uma voz activa no jogo democrático, exigindo reformas mais que necessárias para o bom funcionamento do país.

Participe na discussão

O Contraditório confere a todos os utilizadores o direito de acederem, rectificarem e eliminarem os respectivos dados pessoais. Os dados recolhidos destinam-se apenas à identificação do autor da mensagem.


Código de validação