Nuvens carregadas no horizonte egípcio

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Eduardo Passos

Investigador
"Na primeira ronda das eleições parlamentares no Egipto os revolucionários secularistas tiveram um desempenho fraco"

Publicado a 16 Dezembro 2011 em Relações Internacionais

Na primeira ronda das eleições parlamentares no Egipto, os revolucionários secularistas tiveram um desempenho fraco, prevendo-se um futuro incerto e complicado para este importante país do Médio Oriente. Os grandes vencedores deste pleito acabaram por ser dois partidos islâmicos: o braço político da Irmandade Muçulmana, o Partido da Liberdade e Justiça (PLJ) com cerca de 40% dos votos, e o partido salafista, o Al-Nour, (ainda mais radical que o primeiro) com cerca de 25%. O Exército, apesar da forte contestação nas ruas parece não querer abandonar facilmente o poder conseguido após a saída do antigo ditador egípcio, Mubarak. Há indícios de que os militares possam influenciar a elaboração da futura constituição egípcia no sentido de limitar o controlo civil sobre o exército.

Esta situação é uma machada na possibilidade de o Egipto se tornar uma democracia de estilo ocidental. Desta forma, o Egipto aproxima-se mais de um regime semelhante ao da Turquia, onde o Exército desempenha um papel preponderante, porém, sem um líder secularista como foi Kemal Ataturk para lutar por um Estado secularista. Desta forma, a perspectiva de um regime islâmico no Egipto começa a pairar na mente de todos os egípcios. Como escreveu o analista norte-americano, George Friedman, os moderados egípcios que tinham o apoio dos governos ocidentais agora terão que aceitar a agenda islâmica, apoiar os militares ou cair na irrelevância.

A última esperança reside nas possíveis escolhas da Irmandade Muçulmana, que se assume como um partido islâmico moderado. O PLJ já veio afirmar que não irá formar uma coligação com o Al-Nour no sentido de formarem uma grande aliança islâmica no parlamento. Esta estratégia poderá deixar aos liberais uma oportunidade para apresentarem as suas ideias, mas neste momento ainda é complicado prever como os partidos irão traçar as suas estratégias parlamentares. O melhor que poderia acontecer ao Egipto é que as disputas ficassem apenas dentro do parlamento e não sejam transportadas para as ruas, criando assim uma espécie de guerra civil entre os apoiantes das diversas facções políticas e religiosas.

 

Mudança de regime

 

O facto da mudança de regime no Egipto ter acontecido durante o movimento que se denominou de Primavera Árabe, com as pessoas nas ruas, e com movimentos civis organizados por meio das redes sociais acabou por influenciar grande parte das análises sobre o futuro político do Egipto. A democratização de um país costuma ser mais doloroso do que normalmente se imagina. A natureza das forças políticas e religiosas que viveram por muito tempo na sombra do ex-ditador egípcio já prenunciavam que seria difícil aos liberais conseguir o poder com uma maioria satisfatória. No livro “Electing to Fight”, Edward Mansfield e Jack Snyder demonstraram quanto o processo de democratização de um país pode ser conturbado e violento:

The same properties of incomplete democratizers that give rise to both external and civil war also predispose such states to engage in atrocities and massive human rights violations. Genocides and other atrocities take place in autocracies, but our case studies show that they also take place in states undergoing incomplete democratization. These abuses can result from the ethnic nationalist politics atirred up in the early stages of the transition process in weakly institutionalized political systems where elites are threatened by the prospect of political change (MANSFIELD & SNYDER, 2005).

Esta análise remete-nos para uma outra ideia sobre mudanças de regime. Kenneth Maxwell ao analisar a revolução portuguesa de 1974 fez uma brilhante analogia em relação à mudança política que estava em curso. A mudança de regime é igual quando levantamos um grande pedra da terra. Poderemos encontrar algumas coisas interessantes, mas também poderemos deparar-nos com outras coisas inesperadas e desagradáveis (MAXWELL, 1995).  

 

Economia quebrada

 

Se os cálculos políticos geram incertezas sobre o futuro do Egipto, é o mau estado da sua economia que poderá despoletar grande instabilidade no país. As reservas de moeda estrangeira têm caído a pique desde o início da revolução. Assim, não deve tardar para o FMI aterrar no Cairo. Além disso, o turismo, uma das principais fontes de rendimento dos egípcios tem diminuído devido ao clima de insegurança que se tem vivido no país desde a queda de Mubarak.

É difícil ser optimista em relação à recuperação económica do Egipto quando a economia mundial caminha a passos largos para a recessão, os partidos islâmicos que têm conquistado mais votos nesta eleição não têm nenhuma experiência em governação, e o crescimento do sentimento de frustração entre a sociedade civil e os militares leva a sangrentas manifestações, o que impede o normal funcionamento da economia egípcia.

No meio destas incertezas abre-se uma porta muito perigosa para que agentes extremistas aproveitem a degradação da qualidade de vida dos egípcios, a rápida desaceleração económica, e as mais que prováveis dificuldades de liderança do futuro governo, para reivindicar poder e aplicar a sua lei. Basta termos em conta que se a Irmandade Muçulmana não fizer uma grande aliança islâmica com os salafistas, estes últimos aproveitarão toda a contestação social para expandir o seu eleitorado e a sua influência dentro do parlamento. Os radicais virão à tona, acabando com um tom mais moderado que o futuro governo possa ter nos seus primeiros dias. O extremismo islâmico é um factor que tem de ser levado em conta em todas as futuras análises políticas sobre o Egipto.  

 

Política externa

 

Para o bem ou para o mal, a saída de cena de Mubarak significa que o Egipto terá uma política externa mais independente na região. Não importa quem irá vencer as eleições e eleger o primeiro-ministro, mas o Egipto se afastará dos Estados Unidos, principal aliado do país durante as últimas décadas. Isso poderá isolar ainda mais Israel no Médio Oriente e pôr em causa a cooperação entre Washington e Cairo no combate ao terrorismo. Devido a esta independência estratégica, o Egipto tornar-se-á uma dor de cabeça para o presidente americano, Barack Obama, se houver uma aproximação com o grande rival dos Estados Unidos na região, o Irão. Durante a ditadura de Mubarak os inimigos dos egípcios eram os mesmos dos Estados Unidos e Israel: além do Irão, estavam a Síria, o Hamas e o Hezbollah. Após a revolução que provocou a alteração de regime no país, este visão sobre quem são os aliados e os inimigos poderá se inverter radicalmente.  As aspirações do Egipto no Médio Oriente é querer ser mais que um simples actor ao comando de Washington. Os egípcios pretendem voltar a ser o centro do Médio Oriente.

 

MANSFIELD, Edward; SNYDER, Jack – Electing to Fight: Why Emerging Democracies Go to War. Cambridge: Harvard University, 2005, p. 274.

MAXWELL, Kenneth — The Making of Portuguese Democracy. New York: Cambridge University Press, 1995

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