Obama e o declínio dos Estados Unidos

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Eduardo Passos

Investigador
"Obama reeleito e com a difícil missão de gerir o declínio dos Estados Unidos"

Publicado a 7 Novembro 2012 em Relações Internacionais

Depois de uma acirrada disputa eleitoral, Barack Obama garantiu mais quatro anos na Casa Branca. O presidente norte-americano terá pela frente duros desafios tanto na política interna como na política externa. Se tradicionalmente os presidentes norte-americanos no segundo mandato estão mais virados para a política externa, Obama não poderá dar-se ao luxo de virar as costas ao que acontece dentro do seu país. Sem uma economia estável e fortalecida a capacidade de projecção de poder dos Estados Unidos fica comprometida.

É um facto que os Estados Unidos continuam a ser a única superpotência no sistema internacional. O único país com capacidade para projectar poder à escala global e com papel determinante na área da segurança internacional. Mas este poder tende a relativizar-se conforme outras potências, como a China ou Índia, continuem a emergir como novos pólos de poder e a saúde económica dos Estados Unidos continue debilitada.

Os problemas económicos e a síndrome Afeganistão/Iraque deverão impedir Washington de entrar numa war of choicenos próximos anos. A relutância dos Estados Unidos em intervirem na Síria, seja por meio de uma coligação com algumas potências regionais ou por meio da NATO, é exemplo disso.

Neste sentido, os Estados Unidos precisavam de um presidente para os próximos quatros anos que, no campo da política externa, soubesse reconhecer as limitações do poder norte-americano. E Barack Obama parece ter sido a escolha acertada.

Obama, apesar de recentemente ter inserido no seu discurso a questão do excepcionalismo, já demonstrou reconhecer quais os limites do seu país quando se fala em projecção de poder. Por isso aposta numa estratégia de offshore balancing, que lhe permitirá reduzir gastos na área da defesa e reposicionar-se estrategicamente no mundo, por exemplo, aumentando o número de tropas na Ásia e a diminuindo a presença militar na Europa. Romney, apesar de não ser aquela figura diabólica como é retratado diariamente na Europa, seguia a linha da administração de George W. Bush, com grande influência dos neoconservadores, em que reconhecer as fragilidades norte-americanas é quase uma heresia. O candidato republicano propunha então baixar impostos, aumentar o investimento na área militar e adoptar uma postura combativa contra a China e a Rússia. Este último considerado por Romney o principal inimigo dos Estados Unidos — o que demonstra um quadro mental ainda muito ligado à Guerra Fria.

 

Retraimento inteligente

Ao contrário de muitas vozes que advogam que o declínio norte-americano é uma ilusão ou que uma estratégia de retraimento seria um sinal de fraqueza por parte de Washington, a verdade é que se tal política fosse adoptada os Estados Unidos nem precisariam de perder o seu posto na hierarquia internacional e até sairiam mais fortalecidos. E a história dos declínios das grandes potências comprova essa situação, como demonstram Paul K. MacDonald e Joseph M. Parent num artigo recente:

Contrary to the pessimistic conclusions of critics, retrenchment neither requires aggression nor invites predation. Great powers are able to rebalance their commitments through compromise, rather than conflict. In these ways, states respond to penury the same way they do to plenty: they seek to adopt policies that maximize security given available means. Far from being a hazardous policy, retrenchment can be successful. States that retrench often regain their position in the hierarchy of great powers. Of the fifteen great powers that adopted retrenchment in response to acute relative decline, 40 percent managed to recover their ordinal rank. In contrast, none of the declining powers that failed to retrench recovered their relative position[1].

Obama parece ser assim o commander-in-chief mais capaz de levar a cabo esta missão. Temos que aguardar para ver se o presidente norte-americano nos próximos quatro anos terá a capacidade de resolver os imensos problemas internos ao mesmo tempo que reposiciona estrategicamente os Estados Unidos no mundo sem perder o posto de liderança na hierarquia mundial.

 

Paul K. MacDonald; Joseph M. Parent, “Graceful Decline? The surprise success of Great Power Retrenchement. International Security, Vol. 35, no. 4 (Spring 2011), p. 10.

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