A armadilha das ideias

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Luís Faria

Investigador e Presidente do Contraditório
"Portugal deve olhar mais longe e seguir em frente, rumo à prosperidade, para longe das más ideias"

Publicado a 8 Março 2013 em Economia e Finanças

"Precisamos de copiar as políticas dos países mais bem-sucedidos e virar as costas à nossa falhada tradição política nacional". Dificilmente ouviremos esta ideia de um candidato político eleito em Portugal e esta é a razão pela qual consistentemente temos tido más políticas.

Este artigo oferece uma perspectiva de como o mau desempenho não é auto-correctivo e por que Portugal está preso a más ideias. Mas mais importante, este artigo mostra que o segredo do sucesso de um país está numa mão cheia de heróis, um grupo de indivíduos com alguns líderes excepcionais (Harberger, 1993).

Portugal partilha três características com alguns dos piores países do mundo para se viver:

1.     O baixo crescimento económico;

2.     Políticas que desincentivam o crescimento;

3.     Resistência à ideia de que outras políticas seriam melhores.

 

Caplan (2003) apresenta uma interessante teoria para explicar esta combinação:

 

1.      Boas (más) ideias geram boas (más) políticas.

2.      Boas (más) políticas geram bom (mau) crescimento.

3.      Bom (mau) crescimento gera boas (más) ideias.

 

Os dois primeiros pontos deste círculo "virtuoso" (ou "vicioso") podem ser analisados à luz do bom senso. O autor explica o terceiro ponto, menos intuitivo, com o facto de que o crescimento do rendimento parece aumentar a literacia económica. No entanto, o mesmo não se verifica com o nível de rendimento. Isto significa que, por exemplo, as pessoas mais pobres cujo rendimento está a aumentar - por exemplo, imigrantes recentes - têm uma sensibilidade económica acima da média. No entanto, as pessoas ricas têm uma menor sensibilidade (Caplan, 2001).

Aceitamos que é ilógico abraçar ideias contra-produtivas apenas porque a conjuntura está a piorar, mas isto parece ser o que as pessoas fazem. Durante tempos difíceis, a frustração, a ansiedade e a incompreensão sobre como as forças do mercado funcionam tornam-se inevitáveis uma vez que as pessoas preocupam-se com o seu orçamento familiar e se este será suficiente para alimentar a família e pagar as contas.

De que precisamos então para que algo mude? A má notícia é que uma economia na “armadilha das ideias” geralmente fica na “armadilha das ideias”. A boa notícia é que, ocasionalmente, um país pode ganhar a lotaria - um governo que tenta uma abordagem de mercado livre, facto que aumenta o crescimento económico e melhora o clima da opinião pública que, consequentemente, com alguma sorte, reelege um governo que adopta reformas no mesmo sentido.

Mas por que é que Portugal mantém más políticas económicas? Alguma literatura (Rodrik, 1996) sugere como explicações: 1) a aversão ao risco - os eleitores preferem as más políticas em vez de um jogo político que pode tornar a reforma ainda pior; e 2) preferência temporal - as reformas têm benefícios de longo prazo, mas custos no curto prazo. No entanto, se analisarmos a alternativa - não reformar - e as suas consequências, mesmo no curto prazo, o impacte da reforma é extremamente promissor (Rodrik, 1996). O Contraditório think tank publicou anteriormente artigos (aquiaqui e aqui), com base em evidência empírica, onde demonstrou que a reforma e as boas políticas económicas são possíveis, mesmo - ou sobretudo - durante a turbulência de uma crise.

Mas Portugal aborda as más políticas de uma forma peculiar: é amplamente aceite que os eleitores admitem más políticas como se estas fossem um imperativo cultural - ou, nas palavras atribuídas a um general romano: "Nos confins da Ibéria, há um povo que não se governa nem se deixa governar". Assim, a resistência à ideia de que outras políticas seriam melhores é ainda maior. A generalização desta ideia e a consequente resignação de um país soa a música para os ouvidos do status quo. Mas segundo Caplan (2003), a persistência de longo prazo em más políticas sugere que a probabilidade das pessoas perceberem que as suas políticas preferidas são ineficazes, dado que essas políticas são ineficazes, é baixa. Quando as pessoas abandonam a crença em políticas anteriores, este reconhecimento é interpretado como um choque aleatório positivo nas ideias e não necessariamente o resultado de uma aprendizagem através da experiência.

“Este governo será austero, intransigente e impopular, se isso for necessário para conseguir a recuperação económica”. Esta frase podia ter sido proferida no Portugal de hoje, mas tem 30 anos e é da autoria de Mário Soares[1].

Portugal está há décadas na armadilha das más ideias. As boas ideias requerem, por exemplo, respeitar as restrições orçamentais; romper com o comprometimento com os grupos de interesse que têm sido os principais beneficiários das danosas políticas do passado; e implementar políticas orientadas para o mercado.

A rápida passagem de uma política de substituição de importações para uma política de comércio livre, em praticamente todo o mundo, é um bom exemplo da armadilha das ideias e do efeito "sorte". Será que os países mudaram de rumo porque "aprenderam" que a política de substituição de importações era ineficiente? Se assim foi por que demorou tanto tempo para perceberem o quão negativa era esta política? Qual foi a informação, nova ou extra, que obtiveram e que permitiu expor os seus erros? Caplan (2003) destaca que a aleatoriedade dos choques ideológicos está correlacionada entre países devido, principalmente, à partilha de experiências e à comunicação. Se as políticas de substituição de importações em países menos desenvolvidos foram um choque ideológico negativo, o mais recente movimento para o comércio livre foi um choque ideológico positivo transnacional.

A conclusão é reveladora sobre o que esperar em Portugal: "Tendências transnacionais não foram uma coincidência, mas em nenhum caso a mudança ideológica surgiu como uma resposta inevitável à evidência", (Caplan, 2003, p. 195). Assim, apesar da possibilidade de países com baixo crescimento económico imitarem as políticas bem-sucedidas de outros países, é endogenamente improvável que o façam.

Se um formador de opinião ou político portugueses defendem que uma política bem-sucedida é inaplicável no Portugal de 2013, estamos seguramente perante um não-reformador ou alguém sem o potencial para dar início a uma prosperidade auto-sustentável. Se alguém defende políticas bem-sucedidas durante vários anos e quando membro do governo torna-se incapaz de implementá-las, isto apenas significa que esta pessoa não é suficientemente competente ou que as suas boas ideias foram provavelmente anuladas pelo status quo, afectando inevitavelmente a credibilidade dessa pessoa. Assim, o círculo "vicioso" de más políticas persistirá. E tem persistido.

Em vez de resistirmos à ideia de que outras políticas seriam melhores e com isso perpetuarmos o círculo "vicioso", devíamos pensar como melhorar a partir do status quo. A resignação não é a solução e é possível obter choques ideológicos positivos:

"[A] política teria muito provavelmente falhado (ou nunca ter começado), se não fossem os esforços de um grupo-chave de indivíduos e, dentro desse grupo, um ou dois líderes excepcionais", Harberger (1993).

Portugal deve olhar mais longe e seguir em frente, rumo à prosperidade, para longe das más ideias.

 

[1] Citado por Jose Maria Maravall em Luiz Carlos Bresser Pereira, Maravall, e Adam Przeworski (1993), em Rodrik (1996).

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Comentários (7)

  • João M. Damas 10 Abril 2013, 17:18 GMT
    Irei tentar tirar algum tempo da minha agenda para olhar para o paper do Harberg.
  • Luís Faria 9 Abril 2013, 23:37 GMT

    @João M. Damas

    Se o problema fosse a "cultura subjacente" e se esta impedisse as boas políticas, então nunca seria possível reformar sem antes mudar a cultura pessoal da maior parte dos cidadãos de um país. A História diz-nos que felizmente não é assim: Brasil da década de 60 - o milagre brasileiro -; Uruguai do início da década de 80; México da década de 80; Chile da década de 70 até aos dias de hoje; e vários países asiáticos (Formosa, Coreia do Sul, Singapura, Hong Kong, Malásia ). Os exemplos do paper de Harberger demonstram que a resignação e a perspectiva determinística são um equívoco.

    Já houve reformas no bom sentido? Sim. Foram necessários anos ou décadas de aculturação? Não. O mesmo país, a mesma matriz cultural, as mesmas pessoas, mas mudaram as ideias e a cultura política, com excelentes resultados.

  • João M. Damas 9 Abril 2013, 0:48 GMT
    Um exemplo de algibeira :) Não quero entrar numa discussão sem fim, mas tomando o mesmo exemplo, traga 100, 200, 5000 zimbabuenses para a Suécia. Por mais políticas certas que a Suécia tenha, não consegue suportar uma cultura subjacente, que demorará tempo a "habituar-se" a um novo paradigma. Por alguma razão alguns países como a Dinamarca já impedem a livre entrada de pessoas, que mesmo vivendo numa espécie de "El Dorado" político, primam por subvertê-lo, não por culpa própria, mas sim devido a um inconsciente cultural colectivo. Sei que o que eu digo é altamente discutível, até porque não sou um especialista, apenas não creio que uma política económica seja universalmente "boa", que há sempre condicionantes.
  • Luís Faria 7 Abril 2013, 19:35 GMT

    @ João M. Damas

    As boas políticas económicas são parte da cultura política e é sobre ela que escrevo neste artigo - por exemplo, mercado livre e concorrência, abertura à globalização, etc. A cultura pessoal - ou "dos povos em causa", como disse - tem certamente influência no crescimento económico mas insignificante quanto comparada com a cultura política.

    Qual o impacte da cultura política e da cultura pessoal? Vejamos: ponha um zimbabuense, escolhido aleatoriamente, na Suécia. Talvez não receba o rendimento médio de um sueco mas pode esperar que o seu rendimento aumente 80 vezes! Por outro lado, imagine um zimbabuense no Zimbabué completamente imbuído do etos sueco. Pode ser relativamente bem-sucedido mas seria surpreendente se conseguisse quadruplicar o seu rendimento.

    O ponto que quero sublinhar é o de que aqueles que vêm de uma cultura disfuncional mas que vivem em economias funcionais são mais bem-sucedidos do que aqueles que vêm de culturas funcionais mas que vivem sob políticas económicas disfuncionais.

  • João M. Damas 7 Abril 2013, 10:43 GMT
    Tenho só um pequeno comentário acerca de "políticas bem-sucedidas": considerar uma política como bem-sucedida implica necessariamente incluir o seu contexto no seu sucesso. Ou seja, na minha opinião, uma política bem-sucedida, por exemplo, num país nórdico, quando aplicada em Portugal, não será necessariamente bem-sucedida. Isto deve-se a toda a conjectura do país em que se aplica a dita política, e a mentalidade e cultura dos povos em causa.
  • Luís Faria 5 Abril 2013, 22:40 GMT

    @ Lourenço

    A nossa situação não se deve às políticas europeias. A diferença entre países dentro da UE - ou entre estados dos EUA -, sob algumas políticas comuns, demonstra que esta não é uma boa justificação para este caso.

    O facto de ser um pequeno Estado também não é uma boa justificação. Muitos pequenos Estados, alguns ainda menores que Portugal - por exemplo, Hong Kong - são casos de sucesso. Não é por acaso, mas devido a boas políticas.

    Acreditar que é a UE e a dimensão que nos torna o que somos é um sintoma da resistência à ideia de que outras políticas seriam melhores. A resignação não é a solução. As boas políticas são.

  • lourenco 5 Abril 2013, 17:05 GMT

    dúvido que algum português não quisesse o bem do seu país, até mesmo os seus políticos, mas não estamos todos presos às políticas europeias? já ouvi da boca de pessoas entendidas no assunto que não passamos de um pequeno estado com Alabama ou Texas (ainda mais pequenos), e que estamos perante uma "lei federal" que decide o que pagamos, quais os juros, etcetc, no fim emprestam-nos dinheiro sem a mínima garantia de que vamos pagar. uma confusão que não só vai na cabeça das pessoas como faz parte integral do seu dia a dia.