O que as pessoas querem ouvir

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Luís Faria

Investigador e Presidente do Contraditório
"Quando perguntei a um político: "Qual é para si a característica mais importante num político?", a resposta foi imediata"

Publicado a 9 Novembro 2016 em Política

Trabalhei com políticos durante vários anos e convivi com alguns de todos os quadrantes políticos (assim não há pistas para quem possa querer adivinhar partidos nas próximas linhas). Quando, em conversa informal, perguntei a um desses políticos: "Qual é para si a característica mais importante num político?", a resposta foi imediata: "A imagem". Também não foram raras as vezes que ao apresentar as minhas ideias ouvi dizer de vários políticos: "Isso não é o que as pessoas querem ouvir". E, para finalizar os casos da vida real, quando em 2013 fui a uma troca de ideias promovida pelo Institute of Economic Affairs, em Londres, ao defender as minhas ideias um membros do IEA disse que eu podia defender essas ideias apenas porque não era político. A conclusão parece óbvia: eu digo o que acho que está certo (e tento fundamentá-lo da melhor forma) mas isso não é o que os políticos dizem porque, segundo os próprios e quem os conhece bem, não é o que as pessoas querem ouvir. Esta é a melhor forma que tenho para demonstrar o valor que dou à política e aos políticos.

É fácil fazer estes casos atravessarem o Atlântico e aplicá-los às eleições americanas. Vejamos três casos em que as políticas defendidas por Trump e Clinton pareciam à superfície divergir significativamente:

Guerra: Trump defende o aumento da despesa militar dos EUA e o armamento nuclear para o Japão e Coreia do Sul; Clinton é co-responsável moral pela morte de muitos inocentes nos conflitos militares em que os EUA intervieram nos últimos anos. Antes de matar pessoas inocentes deve existir uma razoável certeza de que essas acções, altamente imprevisíveis, terão consequências extremamente benéficas e que se sobrepõem aos mais do que certos e graves prejuízos. Portugal tem participado orgulhosamente em muitas destas intervenções.

Economia: Trump, enquanto mente, grita por mais proteccionismo económico, mais tarifas e menos comércio livre, ao mesmo tempo que assegura que isso trará mais emprego para os americanos. Clinton quer aumentar a dívida pública, aumentar impostos e a regulação. Todas estas propostas trazem péssimas consequências para a economia e não fogem muito da realidade portuguesa (aqui e aqui).

Imigração: Nenhum candidato defendeu uma política de imigração justa, se bem que Clinton não chega ao nível de Trump na violação de direitos individuais, mas não fica isenta de culpas, longe disso. Também em Portugal ninguém, excepto no Contraditório Think Tank, vê os direitos individuais dos estrangeiros da mesma forma que vê os direitos individuais dos nacionais.

E seremos assim tão diferentes em Portugal? Quando os outros partem em aventuras belicistas, nós apoiamo-los e seguimo-los; quando defendem políticas prejudiciais para a economia e o crescimento económico, nós reproduzimo-las; e quando propõem a construção de um muro, nós orgulhamo-nos de aceitar umas centenas de refugiados em situações muito especiais, mas não abdicamos dos "muros humanos armados", a que chamamos serviços de estrangeiros e fronteiras, e que impedem pelo uso da força qualquer nacional português de contratar, por exemplo, um tailandês, um argentino ou um nigeriano para trabalhar em sua casa. Trump diz aquilo que muitos americanos querem ouvir, mas não é essa a justificação dos políticos para dizerem o que dizem? Porquê a surpresa?

Eu sou um não-votante por princípio. Há mais de 15 anos que prefiro não assumir a responsabilidade de dar o poder a um grupo de pessoas para decidirem sobre a vida dos outros, muitos outros. E não percebo, aliás desprezo, a habitual histeria irracional da discussão política. Por isso, se houver uma forma eficaz de ajudar aqueles que mais precisam (e há muitas para além de ter um think-tank a divulgar as ideias certas, por exemplo esta), estou disponível para fazer o que puder para ajudar. Mas não contem comigo para tentar ajudar os que mais precisam através de uma forma ineficaz e ilusória - o voto naqueles que valorizam a imagem em detrimento das ideias e dizem não a verdade mas o que acreditam que os outros querem ouvir.

Se Trump é racista, misógino e defende métodos de tortura bárbaros só demonstra como é ignorante. Se defende uma maior militarização dos EUA isso demonstra como estará disponível para matar inocentes sem uma razão extremamente forte e quais são os seus valores morais. Se defende o proteccionismo económico e diz que isso criará emprego expõe a sua iliteracia económica. Se defende o nacionalismo e a construção de muros, demonstra a facilidade com que violará direitos individuais e a ausência de valores morais, e confirma a inumeracia em matérias económicas por ignorar o impacto positivo que a imigração traz a um país e ao mundo. Se a Melania gosta de viver rodeada por estas ideias é problema dela. Se os eleitores que votaram em Trump querem viver na "Trumpalândia" que se organizem numa parte do país e implementem as suas ideias. Mas aceitar como natural que Trump (ou para o caso qualquer outra pessoa) possa ditar ordens sobre a vida das outras pessoas deixa-me perplexo e parece-me claramente problemático do ponto de vista moral e da filosofia política. Ainda alguém tem dúvidas que chegou o momento de pensar e pôr em prática a alternativa à democracia?

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Comentários (2)

  • Luís Faria 10 Novembro 2016, 18:33 GMT

    @António Guedes

    Obrigado pelo comentário.

    Antes de mais, quando a discussão chega a este ponto – o ponto em que já não discutimos o que está mal com a democracia mas qual a alternativa - dou-me por muito satisfeito e considero que metade do trabalho está feito.

    Antes de qualquer argumento contra a democracia devo esclarecer que considero a democracia actual o melhor sistema que alguma tivemos, o que não quer dizer que não possamos (e devamos!) ter melhor. Mas parece-me inapropriado orgulharmo-nos do facto de a democracia que temos ser melhor que os totalitarismos comunista e fascista do século XX; que todas as teocracias, cleptocracias e autocracias que tivemos e ainda temos no mundo; ou que os regimes absolutistas e feudais de há uns séculos.

    Discordo consigo quando diz que a democracia tem um fundamento ético. Não há nada de ético em impor a vontade da maioria sobre a minoria. A democracia de Aritóteles aceitava a existência de escravos; a democracia de há pouco mais de um século aceitava que as mulheres e os pobres eram inferiores; a democracia americana institucionalizou a segregação racial até 1964; e a maior parte das democracias actuais ainda condena e penaliza relações entre pessoas do mesmo sexo. Estes são só alguns dos exemplos que a maior parte das pessoas aceita como razoáveis para expor a imoralidade da democracia.

    Qualquer fundamento ético deve estar na não violação de direitos individuais, excepto em circunstâncias muito especiais. O problema da democracia é que aceita a violação desses direitos desde que “validados” por uma maioria. E isto viola qualquer lógica assente em direitos, ou pelo menos é assim que eu vejo o problema.

    Sobre a alternativa, as últimas palavras do texto têm um link para um livro que recomendo vivamente (o melhor que já li até hoje sobre o problema da autoridade política) e que apresenta uma alternativa viável. Não vou entrar em conceitos para a discussão não ficar contaminada por preconceitos, mas as ideias publicadas no livro merecem ser lidas atentamente, até porque, estas sim, estão fundamentadas eticamente.

  • António Guedes 10 Novembro 2016, 16:58 GMT
    E qual seria essa alternativa? É bom não esquecer que a democracia tem um fundamento ético, o respeito pelo próximo e pela sua dignidade. Que outro sistema garante esse respeito?