possvel conciliar cincia e religio?

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    Alfredo Dinis, sj

    Professor Associado da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Catlica Portuguesa
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    Palmira Silva

    Professora Auxiliar do Departamento de Engenharia Qumica e Biolgica do Instituto Superior Tcnico
10 Junho 2013 a 23 Junho 2013 em Cincia, Tecnologia e Inovao

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Introdução

Desde que se tem memória que os seres humanos tentam compreender o mundo ao seu redor e a razão da sua própria existência. Tanto a religião como a ciência nasceram dessa busca e, efectivamente, a sua coexistência tem sido em geral pouco harmoniosa.

Por isso, é importante perguntar se será possível conciliar estas duas perspectivas. O Contraditório convidou Alfredo Dinis, sj, Professor da Faculdade de Filosofia de Braga – Universidade Católica Portuguesa, para defender o “sim” e Palmira Silva, Professora do Instituto Superior Técnico, para defender o “não”.

  • Sim 31%
  • Não 69%

fases

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Argumentos iniciais

Sim thumb-membro

Alfredo Dinis, sj

Professor Associado da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Catlica Portuguesa

Não thumb-membro

Palmira Silva

Professora Auxiliar do Departamento de Engenharia Qumica e Biolgica do Instituto Superior Tcnico

O debate sobre a compatibilização entre ciência e religião é tão antigo que pode causar a muitos admiração o facto de não ter ainda chegado ao fim. Parece-me pois conveniente começar mais um debate com algumas observações preliminares sobre algumas causas que mantêm o debate aceso e sem fim à vista.

A questão de saber como se harmonizam ciência e religião em geral é complexa e nunca será provavelmente compreendida pelos seres humanos. É certo que de uma e outra parte – crentes e não crentes - há quem afirme que o debate já não se justifica e que uma solução já foi encontrada. Há, por um lado, crentes que consideram provada a existência de um Deus criador do universo, sendo a ciência compatível com a religião. Há, por outro lado, não crentes para os quais a ciência já demonstrou que não existe nenhum Deus, criador ou não, e que ciência e religião são incompatíveis.

De facto, porém, não possuímos qualquer prova tão forte e indubitável que convença toda a gente, seja da existência necessária de um deus que constitua a explicação última do universo, como querem alguns crentes, seja da não existência e não necessidade de um tal deus, como querem alguns não crentes.

A ideia de que a ciência é incompatível com a religião tem a sua origem, pelo menos na cultura ocidental de raíz Cristã, no facto de durante muitos séculos a narração bíblica da criação do mundo e da Humanidade, tal como surge no Livro do Génesis, ser considerada uma explicação em termos a que hoje chamamos científicos, de como tudo realmente começou. A fusão desta narração com ideias da cosmologia grega sobre a natureza e o movimento dos corpos celestes, e sobre a estrutura do universo – constituído, até ao século XVII, praticamente pelo sistema solar e as estrelas -, pareceu fundamentar um discurso coerente e completo sobre todos os fenómenos naturais, e até o paraíso, Deus, os anjos e os santos tinham o seu lugar por detrás das estrelas.

Quando no século XVII o crente Galileu e outros, crentes ou não, deitaram por terra esta estrutura, pareceu à Inquisição que as novas ideias cosmológicas eram incompatíveis com o Cristianismo. Mas não eram. Eram incompatíveis com a versão cosmológica fruto da fusão do Génesis com a cosmologia grega, como se disse. Mas essa fusão não pertence ao núcleo do Cristianismo, como não pertence a este núcleo qualquer teoria científica, cosmológica ou outra.

Quando no século XIX Charles Darwin deitou por terra a ideia de que no espaço de uns dias Deus criou o universo e todas as espécies, incluindo Adão e Eva dos quais descenderiam todos os seres humanos, pareceu a muitos que as novas ideias antropológicas eram incompatíveis com o Cristianismo. Mas não eram, ainda que actualmente haja crentes para os quais a narrativa bíblica deva ser entendida literalmente. São os Criacionistas. Para estes, parece haver um conflito entre ciência e religião. Mas não há. O que há é um conflito entre a sua interpretação do texto bíblico e os dados da ciência moderna.

Acontece que nas suas críticas à religião alguns não crentes aliam-se estranhamente aos Criacionistas para mostrar como a narração bíblica da criação do mundo em seis dias está em contradição com a ciência. E está. Mas a maior parte dos crentes não é Criacionista. Acontece, porém, que na sua argumentação os não crentes tendem a escolher cuidadosamente as teses de alguns Cristãos que mais contradizem a ciência, optando por ignorar a posição dos Cristãos que têm uma perspectiva não contraditória com a ciência.

Criou-se, por outro lado, uma ideia da religião como algo de ‘sobrenatural’, algo que paira acima da natureza e que ‘desceu do céu’, desse céu aristotélico-tomista que entretanto desapareceu. A ideia, hoje defendida muitos, de que o sentimento religioso é um simples fenómeno evolutivo tendo por isso uma explicação meramente natural parece por isso opor-se à concepção especificamente religiosa. Mas isso não é verdade. O facto de a religião ter surgido no decurso da evolução biológica e histórica da Humanidade, significa que pertence ao mais íntimo da natureza humana como um elemento da sua ‘espinha dorsal cultural e existencial’. Mas a religião representa, ao mesmo tempo, a transposição dos limites de uma existência meramente biológica e de luta pela sobrevivência da espécie. A religião representa a recusa de acreditar que a vida humana não tem qualquer importância num universo que teria surgido por acaso e onde a Humanidade teria aparecido igualmente por mero acaso.

Mais recentemente, os estudos do cérebro revelaram as zonas de actividade neuronal relacionadas com a actividade religiosa, como a oração e a meditação, visões, etc. Daqui alguns concluíram apressada e acriticamente que é a actividade de determinadas zonas cerebrais que causa tudo o que tem a ver com a religião. Mas esta afirmação baseia-se num erro básico e muito comum de identificar correlação e causação, condições necessárias e condições suficientes. Para cada aspecto do comportamento humano – ético, estético, físico, etc – há sempre alguma actividade cerebral correspondente associada. Mas isso não significa que essa actividade seja a causa, por exemplo, das grandes sinfonias criadas pelos mestres da música; a actividade neuronal apenas lhes tornam possível o exercício da criatividade artística, como condição necessária, mas não é suficiente para que surjam as grandes obras musicais. Assim também, no caso do comportamento religioso, a actividade neuronal é uma condição necessária para que ele exista, mas não é uma condição suficiente.

Houve sempre cientistas crentes que viveram pacificamente o aspecto científico e o religioso. Em Portugal, podemos referir, por exemplo, a figura do P. Luís Archer, Jesuíta recentemente falecido, que introduziu no nosso país a investigação em Genética Molecular, depois de se ter doutorado nesta área nos Estados Unidos, e trabalhou durante muitos anos no Instituto Gulbenkian de Ciência. Tal como compeendeu o P. Archer, a religião só tem a ganhar com a ciência. Quanto melhor ciência, melhor religião.

Eu próprio, também Jesuíta, actualizo-me constantemente sobre ciências como a Biologia, a Cosmologia, as Neurociências e outras Ciências Cognitivas. Leio as obras de cientistas militantemente ateus, como Richard Dawkins, e de outros investigadores como António Damásio. Nunca senti que o conhecimento científico abalasse a minha crença em Deus, mas algum conhecimento científico leva-me a repensar e a reformular alguns aspectos da minha fé, o que só me tem feito bem.

Quando se pergunta por que razão existe um universo – ou infinitos universos! –, por que razão se desenvolveu a vida no planeta Terra - e talvez em milhões de outros planetas -, e ainda por que razão vale a pena dar a vida por grandes causas, pela justiça, pela liberdade, os não crentes apenas poderão responder: ‘porque sim’. Se o universo e a vida surgiram por acaso, toda a história da Humanidade acabará em nada, e tudo o que fizermos ou deixarmos de fazer não tem, em última análise, qualquer importância. Não há mais nada a explicar. Os crentes não se satisfazem com estas respostas. Poderão, como afirmam alguns não crentes, contentar-se com respostas erradas e fantasiosas, mas o que separa os crentes dos não crentes é a insatisfação dos crentes perante respostas simples que são dadas pelos não crentes a questões extremamente complexas.

Finalmente, como escreveu o filósofo Ludwig Wittgenstein, na sua obra Tractatus, “Sentimos que, mesmo depois de serem respondidas todas as questões científicas possíveis, os problemas da vida permanecem completamente intactos.” (6.52)

A religião foi a primeira tentativa de interpretação do mundo e dos fenómenos da Natureza. A semelhança entre ciência e religião é assim o facto de que ambas são fruto da necessidade do Homem em explicar e entender o mundo. As diferenças entre ambas são profundas diferenças metodológicas, a religião assenta na fé, em acreditar em algo sem razões que estabeleçam a sua verdade, e a ciência em factos e no método científico. A ciência é por isso universal enquanto a interpretação com base na fé resultou em inúmeras religiões, tão antagónicas que os seus embates ecoaram ao longo da História.

Para confirmação de que religião e ciência embora com a mesma origem muito depressa divergiram e chegaram à modernidade sem nunca confluírem, recordemos os séculos medievais, fortemente enraizados no poder da Igreja, em que o homem pouco se permitia questionar quer em relação à concepção da Natureza quer em relação à concepção do belo. Do espaço medieval ao renascentista observa-se assim uma transição do tempo absoluto para a experiência individual, da esfera celeste para a terrestre da arte como contemplação do divino para a arte para deleite humano. Mas a transição cultural renascentista, impulsionada pela arte e pela ciência e marcada pela ascendência do pensamento científico, não foi de todo uma transição pacífica embora muitos cientistas como Copérnico, Galileu, Kepler, Newton, Boyle ou Gassendi tentassem, infrutiferamente, conciliar a ciência que faziam com a fé que professavam.

Usando a estrutura da matéria como exemplo, Nicholas de Autrecourt protagonizou, no século XIV, a primeira (e única durante uns séculos) tentativa de recuperação do atomismo grego. A filosofia natural de Autrecourt mantinha que a matéria, constituída por átomos, é eterna e não se corrompe e que as mudanças no mundo natural se devem ao movimento dos átomos. Embora Autrecourt assegurasse que não pretendia contradizer a fé católica, tal não foi a leitura do papa e demais eclesiásticos que o julgaram e condenaram em 1346. Os ensinamentos de Autrecourt foram declarados falsos, perigosos, presunçosos e heréticos, a sua obra foi queimada e o filósofo foi obrigado a retractação pública. O atomismo, especialmente repudiado por negar a doutrina da transubstanciação, era visto como um ataque às fundações da fé católica. A condenação do atomismo pela Igreja Católica agudizou-se após a Reforma protestante já que os protestantes defendiam a consubstanciação e negavam a transubstanciação, isto é, "O pão e o Corpo de Cristo estão realmente, mas não substancialmente nem essencialmente presentes" na eucaristia.

No Concílio de Trento, marcado para reafirmar as doutrinas católicas tradicionais e fazer frente à reforma protestante, a doutrina católica foi definida não apenas do ponto de vista teológico mas claramente no domínio científico. Nomeadamente, ao reafirmar a doutrina da transubstanciação, a Igreja condenou o atomismo que afirmava serem os átomos ou mínima a substância de um objecto e as percepções sensíveis produto dessas partículas. Se durante a eucaristia as percepções sensíveis do pão e do vinho não se alteravam após a consagração então não ocorria transubstanciação. Isto é, "cor", "odor" e "sabor" eram palavras do domínio teológico, designavam antes de mais o milagre eucarístico, e qualquer tentativa de explicação natural destas propriedades constituía uma heresia a ser combatida.

Aliás, Descartes apercebeu-se dessa implicação do seu Traité de la Lumière (Tratado da Luz) e impediu a sua publicação, embora numa carta ao seu amigo padre Mersenne, datada de 25 de Novembro de 1630, tenha referido que, como em quase toda a sua obra, tentava conciliar religião católica e ciência: "querendo aí explicar as cores, em consequência fico obrigado a explicar como a brancura do pão permanece no Santo Sacramento".

Ou seja, ao longo de boa parte da História da humanidade muitos cientistas tentaram arduamente (re)aproximar ciência e religião, sem nenhum sucesso, pelo que parece complicado que essa conciliação venha algum dia a acontecer: "Grandes mentes científicas, desde Ptolomeu no século II a Isaac Newton no século XVII, investiram os seus intelectos formidáveis em tentativas para deduzir a natureza do Universo a partir de afirmações e filosofias contidas em escritos religiosos. De facto, à altura da sua morte, Newton tinha escrito mais palavras sobre Deus e religião que acerca das leis da física, tudo numa tentativa fútil de usar a cronologia bíblica para perceber e prever acontecimentos no mundo natural. Se alguma destas tentativas tivesse resultado, a ciência e a religião poderiam ser hoje em dia indistinguíveis".1

A fé é uma experiência que o homem vivencia a partir do mistério, do incompreensível e do inacessível. Ao longo dos séculos em que religião e ciência fizeram o seu percurso divergente, as ciências exactas, sempre com muitos choques de que o atomismo é apenas um exemplo, foram “empurrando” a interpretação religiosa do mundo para o perímetro da nossa ignorância. Alguns desses choques mantêm-se ainda hoje, expressos, por exemplo, nas guerras da evolução que agitam os EUA e outros países. Mas a frente de incompatibilidade transferiu-se das ciências exactas para as ciências sociais, em particular para a ética, e bem recentemente assistimos, nos mesmos países que viram proibido2, em 1623, o ensino do atomismo, uma "moda" humanista, a ondas de choque provocadas pela convicção de muitos de que devem ser universais os seus argumentos religiosos contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a co adopção, tal como vimos e vemos em relação ao aborto.

A fé e o conhecimento científico são formas diferentes de crença, injustificada e justificada respectivamente. Como não podemos crer simultaneamente no heliocentrismo e no geocentrismo ou no atomismo e nos arqué de Empédocles, a conciliação entre ciência e religião é impossível, a menos que as religiões se restrinjam, sem embates nem combates, ao que está para lá do perímetro da nossa ignorância.

 

1 Neil deGrasse Tyson, Death by Black Hole: And Other Cosmic Quandaries, W. W. Norton, 2007.

2 Em Portugal, essa proibição mantinha-se em pleno século XVIII, como é ilustrado pelo decreto de 1746 do reitor do Colégio das Artes de Coimbra que proibia "quaisquer conclusões opostas ao sistema de Aristóteles" e, em particular, "opiniões novas, pouco recebidas e inúteis para o estudo das Ciências Maiores, como são as de Renato Descartes, Gassendi, Newton e outros".

Moderador

Moderador

Segundo o Rev. John Polkinghorne, existem quatro tipos potenciais de interacções entre a Ciência e a Religião: i) o conflito, ii) a independência; iii) o diálogo e iv) a integração. Nos seus argumentos iniciais, os participantes utilizaram exemplos dessas interacções para defender as respectivas posições.

Assim, Palmira Silva relata vários episódios da História em que Ciência e Religião conflictuaram, mostrando a sua incompatibilidade. Por outro lado, Alfredo Dinis defende que embora este conflito tenha existido no passado (e.g. durante os séc. XVII e XIX), já não tem importância nos nossos dias. Este argumento também foi referido nos comentários: “Como hoje a teologia católica não pretende definir verdades científicas, a separação das duas áreas é pacífica.” Mas Palmira Silva faz notar que a incompatibilidade se transferiu das ciências exactas para as sociais.

Ambos os interlocutores parecem aquiescer que é possível haver alguma independência, ou um certo paralelismo, entre as duas áreas desde “que as religiões se restrinjam (...) ao que está para lá do perímetro da nossa ignorância” (Palmira Silva) ou de modo a suprir “a insatisfação dos crentes perante respostas simples que são dadas pelos não crentes a questões extremamente complexas” (Alfredo Dinis).

O diálogo foi apenas abordado por Alfredo Dinis no âmbito do diálogo interior que pode existir em cientistas crentes:  “Nunca senti que o conhecimento científico abalasse a minha crença em Deus, mas algum conhecimento científico leva-me a repensar e a reformular alguns aspectos da minha fé”. No entanto,  um estudo da Pew Research Center mostrou que se verifica uma proporção de ateus dentre os cientistas (41%) largamente superior à observada na população geral (4%). Será este facto resultante de uma certa irreconciliação entre Ciência e Religião?

Dum ponto de vista estrito, apenas na eventualidade de uma integração da Ciência e Religião poderemos falar de uma reconciliação efectiva. De facto, a existência ou não de conflito, passada ou presente, não é suficiente para justificar a (ir)reconciliação. Campos paralelos e/ou independentes não estão à procura de reconciliação. Finalmente, a existência de diálogo é pouco convincente, pois pode sempre haver diálogo entre opiniões diametralmente opostas.

Como mencionado por Alfredo Dinis, “não possuímos qualquer prova tão forte e indubitável que convença toda a gente, seja da existência (...) ou da não existência (...) de um (...) deus”. Assim, o debate sobre se essa reconciliação/integração é possível ainda é relevante.

 Os participantes mencionaram alguns argumentos a favor (“o facto de a religião ter surgido no decurso da evolução biológica e histórica da Humanidade, significa que pertence ao mais íntimo da natureza humana”) e contra (“boa parte da História da humanidade muitos cientistas tentaram arduamente (re)aproximar ciência e religião, sem nenhum sucesso”) esta possibilidade. Acho que para responder a esta questão, é indispensável discutir a existência de um deus (e qual a sua natureza: teísta, deísta ou panteísta) e também a busca, ainda em curso, de uma explicação para a formação do Universo. Efectivamente, a recente descoberta do bosão de Higgs abriu um novo capítulo no debate entre Ciência e Religião.

Contraditrio

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Alfredo Dinis, sj

Professor Associado da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Catlica Portuguesa

Não thumb-membro

Palmira Silva

Professora Auxiliar do Departamento de Engenharia Qumica e Biolgica do Instituto Superior Tcnico

Uma das ideias recorrentes na argumentação que defende a incompatibilidade entre a ciência e a religião é a de que no ocidente, durante a Idade Média e até ao Renascimento, não houve ciência porque a Igreja o impediu. Esta perspectiva parece aceitar que a ciência moderna teve início - para além da tradição islâmica –apenas no Renascimento, como que a partir do zero, tendo a investigação científica entrado imediatamente em conflito com a autoridade religiosa, separando-se da sua esfera. Esta perspectiva persiste em ignorar estudos de história da ciência que colocam em evidência as raízes medievais da ciência moderna (Edward Grant, Os Fundamentos da Ciência Moderna na Idade Média; id., Physical Sciences in the Middle Ages; David Lindberg (ed), Cambridge History of Science: The Middle Ages; William Wallace, Prelude to Galileo: Essays on Medieval and Sixteenth-Century Sources of Galileo’s Thought).

Continua-se também a ignorar que o génio de Galileu não surgiu nem se formou a partir do nada, e que ele manteve estreitas relações com muitos dos seus contemporâneos Católicos, como os Jesuítas do Colégio Romano, que tinham um observatório astronómico no qual tinha lugar investigação do melhor nível que então se fazia na Europa, e cujos resultados transmitiam aos seus alunos em aulas às quais assistiu o próprio Galileu (William Wallace, Galileo and His Sources: Heritage of the Collegio Romano in Galileo’s Science). Ainda hoje os Jesuítas continuam a fazer investigação de ponta a partir do Observatório Astronómico de Castelgandolfo, e na sua secção no Arizona, Estados Unidos.

A argumentação a favor do conflito entre ciência e religião procede também por exemplos. Galileu e o seu conflito com a Inquisição é exemplo de citação obrigatória. Mas uma tal argumentação deve escolher cuidadosamente os casos de conflito e ignorar os casos de não conflito. Por exemplo, o Jesuíta Ruger Boskovic (1711-1787) é considerado um dos precursores da moderna teoria atómica da matéria e o Padre Georges Lemaître foi quem primeiro sugeriu o que mais tarde viria a chamar-se a teoria do Big Bang sobre a origem do universo (The Primeval Atom). Nenhum deles criou qualquer conflito com as autoridades religiosas. Além disso, a importância que se dá aos exemplos de séculos passados parece revelar alguma dificuldade em encontrar exemplos actuais. O recurso a exemplos retirados das actuais ciências sociais tem uma importância argumentativa muito débil pelo facto de a linha que divide as pessoas que estão contra o aborto, a eutanásia ou os casamentos gay, das pessoas que defendem estas práticas, não coincide com a linha que divide a ciência das religiões.

O argumento que considera que o discurso científico é o único fiável, parte do pressuposto de que ‘conhecimento’ e ‘conhecimento científico’ são semanticamente equivalentes. Mas não são. O célebre conselho de Sócrates ‘conhece-te a ti mesmo’ não equivale a ‘conhece-te cientificamente a ti mesmo’. A pintura, a poesia e outras variedades de expressão da experiência humana são formas de conhecimento que não entram em conflito com a ciência nem a ela se submetem, como se tivessem necessidade de adoptar a metodologia científica para se poderem legitimar. A religião, todas as religiões, colocam-se nesta perspectiva.

A insistência no argumento de que há uma incompatibilidade entre o evolucionismo biológico e a religião, em particular o Cristianismo, ignora estudos como o de Michael Ruse, uma autoridade mundial em Darwinismo, e agnóstico em matéria religiosa. Na sua obra ‘Pode um Darwinista ser Cristão?’ depois de proceder a uma análise cuidadosa da questão, responde afirmativamente.

O argumento de que a existência de Deus se baseia numa impossibilidade lógica, ou em alguma forma de irracionalidade, como a de que Deus se teria criado a si mesmo, criando depois o universo, ignora que sem a hipótese de um Deus criador ficamos com a hipótese de que o universo se criou a si mesmo a partir do nada, hipótese defendida actualmente por alguns conhecidos físicos teóricos cosmólogos, como Alexander Vilenkin (Many Worlds in One), Stephen Hawking (The Grand Design), Alan Guth (The Inflationary Universe) e Lawrence Krauss (A Universe from Nothing).

Levantam-se aqui vários problemas.

O primeiro tem a ver com o conceito de ‘nada’. Para L. Krauss o ‘nada’ é, de facto ‘alguma coisa’. O vazio quântido, do qual terá emergido o universo, não é o nada absoluto. De ‘onde’ surgiu então este ‘alguma coisa?

O segundo problema tem a ver com a origem das leis da natureza, com base nas quais o universo surgiu do nada. De ‘onde’ surgiram estas leis? Não podem ter surgido simultaneamente com o universo, uma vez que este as pressupõe.  

Uma resposta a estes enigmas pode talvez encontrar-se na teoria do ‘universo matemático, de um outro famoso cosmólogo norte americano, Max Tegmark (A Mathematical Universe, livro ainda não publicado). Para Tegmark, o facto de as leis da natureza terem uma estrutura matemática que não foi criada mas apenas descoberta pela mente humana só pode significar que esta estrutura, deve ter uma existência independente do próprio universo a cujos processos se aplica. Neste sentido, ela existe desde sempre, antes de haver universo(s) e para sempre, mesmo que por hipótese todos os universos acabem por entrar em colapso.

A hipótese da existência de algo, a estrutura matemática da realidade, que nem foi criada nem se criou a si mesma mas é eterna, permite compreender que a hipótese da existência de um Deus que existe desde sempre e para sempre, sem ter sido criado, não é assim tão ilógica como pode aparecer à primeira vista.

Finalmente, três áreas fundamentais da existência humana, Filosofia, Ciência e Religião têm de certo modo uma raíz comum: o espanto. O espanto de ‘haver ser’, de ‘haver alguma coisa em vez de nada’ (Filosofia), o espanto de haver um universo que a inteligência humana pode conhecer (Ciência), o espanto de haver um sentido que atravessa e ultrapassa o universo e a existência humana (Religião). O espanto religioso ultrapassa, sem os contradizer, o espanto científico e o filosófico. São três formas distintas de espanto. Mas, distinguir não é separar. Para que não se empobreça a existência humana

“A essência da ciência é estar sempre disposta a abandonar, por outra melhor, uma determinada ideia, por muito fundamental que pareça ser; a essência da teologia é manter que as suas verdades são eternas e imutáveis. A teologia acaba sempre por ceder um pouco ao progresso do conhecimento (…) mas esta cedência é sempre feita de má vontade, e, portanto, acontece muito tempo após o evento [científico].” H.L. Mencken, Minority Report. 

Na sua argumentação inicial, o Alfredo Dinis confirma o segundo período deste excerto de Mencken, concordando no essencial com a minha análise sobre a origem comum de ciência e religião, a tentativa humana de explicar o Mundo, e a sua posterior divergência conflituosa, nomeadamente no que diz respeito ao cristianismo. Por outro lado, concorda igualmente com o facto de as ciências exactas terem “empurrado”, à força de muitos embates, a interpretação religiosa do mundo para o perímetro da nossa ignorância. E, embora alguns comentadores tenham expressado que hoje em dia pelo menos a teologia católica não pretende estabelecer verdades científicas, isso não é verdade nas áreas mais recentes do nosso conhecimento, como confirmado, por exemplo, com as guerras cristãs à investigação em células estaminais.

Apesar de concordarmos nos considerandos, divergimos essencialmente em dois pontos:

1- Para o Alfredo, por ter havido “ sempre cientistas crentes que viveram pacificamente o aspecto científico e o religioso”, é afirmativa a resposta à questão que nos foi colocada. A aceitar esta justificação, teríamos igualmente de usar como legítimo o argumento de autoridade de que o facto de terem existido e/ou existirem cientistas crentes na alquimia, astrologia, homeopatia ou quejandos confirmam que estas são pacificamente compatíveis com a ciência, o que é completamente falso.

Eu não ponho em causa que o Luis Archer, o padre Resina, o próprio Alfredo e muitos outros crentes sentissem e sintam que conciliam sem problemas ciência e religião, mas sim a razoabilidade desse sentimento. Ciência e religião, como sistemas de pensamento, são intrínseca e essencialmente inconciliáveis porque a sua metodologia é intrínseca e essencialmente antagónica. A fé foi desde sempre entendida pelas religiões como uma fonte de verdade, sobre o mundo e sobre o próprio Homem, que não precisa, por definição, de qualquer tipo de confirmação ou verificação. As ciências exactas demonstraram à exaustão que a fé não pode ser considerada uma fonte de verdade porque todas as “verdades” religiosas nas respectivas áreas de estudo foram refutadas cientificamente. Tal como não podemos crer, simultaneamente, no geocentrismo e no heliocentrismo, não podemos, simultaneamente, considerar que podemos chegar à verdade pela fé e pela razão.

2- O Alfredo deixa subentender, no que é reforçado pelo moderador, que a prova da existência/não existência de Deus seria demonstração, necessária e suficiente, da compatibilidade/incompatibilidade de ciência e religião. Ora, nem todas as religiões têm deuses nem a conciliação entre ciência, o profano, e a religião, o sacro, se realiza numa hipotética prova da existência de Deus – e, já agora, que Deus? Um deus teísta, uma qualquer entidade que seja omnipotente, omnisciente, criadora, pessoal, isto é, que não seja uma força da natureza, e infinitamente boa? Um deus panteísta ou um deus deísta, ambos indiscerníveis da Natureza?

Sabemos hoje que o nosso é um universo natural sem quaisquer manifestações ou interferências sobrenaturais perceptíveis. Nada indica que alguma vez se tenha dado algum tipo de teofania mas, mesmo admitindo que há umas centenas de anos um deus teísta se manifestou, um crente que hoje crê em milagres ou reza pela recuperação de um doente, por chuva ou endereça ao seu deus outra prece qualquer está, sem se aperceber, em profunda contradição com a ciência, ao admitir que o seu deus pode interferir em fenómenos que sabemos serem naturais.

Por outro lado, se a discussão da existência de deuses não é tema que diga respeito à ciência mas sim à filosofia, as experiências religiosas são observáveis que podem ser analisadas como todos os fenómenos naturais. Assim, o estudo da religião numa abordagem científica multidisciplinar atrai cada vez mais cientistas, com a emergência de áreas como a neuroteologia, embora, repito, a ciência da religião não pretenda investigar a existência de deuses mas sim as manifestações empíricas da religião.

O moderador diz que “Dum ponto de vista estrito, apenas na eventualidade de uma integração da Ciência e Religião poderemos falar de uma reconciliação efectiva.” Por todas as razões acima expostas, considero que, para além de inconciliáveis, religião e ciência são irreconciliáveis. Deixo Mencken responder sobre o que aconteceria numa hipotética integração: “O esforço para reconciliar a ciência e a religião é quase sempre feito, não por teólogos, mas por cientistas (…). Os teólogos (…) têm clarividência suficiente para compreender que ambas são implacável e eternamente antagónicas, e que qualquer esforço para as meter dentro do mesmo saco terminará com uma delas engolindo a outra.”

Finalmente, embora sem nada – ou tudo - a ver com a conciliação de ciência e religião, não posso deixar de responder à afirmação do Alfredo de que os não crentes “apenas poderão responder: ‘porque sim’ à pergunta “por que razão vale a pena dar a vida por grandes causas, pela justiça, pela liberdade”, uma variante de uma questão tão velha como a história.

No diálogo Êutífron, de Platão, Sócrates pergunta ao defensor da teoria religiosa da fundamentação da ética se o bem moral o é porque é um mandamento divino, ou se é um mandamento divino porque é um bem moral. O Alfredo parece querer apoiar a primeira alternativa, um absurdo diria eu, porque transforma o bem moral em algo arbitrário. Alternativa que, aliás, os mais conhecidos filósofos cristãos da actualidade, como Swinburne, aceitam ser insustentável. Como creio que o Alfredo não defende que, p.e., o assassínio de inocentes só é um mal porque o seu Deus assim o determinou, então tem de admitir que a fundamentação da ética não depende de deus ou deuses. As verdades éticas são-no por razões intrínsecas, chegamos lá pela razão não porque um qualquer deus assim o determinou. De igual forma, o Alfredo termina afirmando que é a religião que dá sentido à vida. Mais uma vez, dizer que a vida tem sentido apenas porque um deus o determina é dizer que o sentido da vida é arbitrário. O sentido da vida, tal como a ética, é independente de deus.

Termino com Epicuro, o filósofo que há cerca de 2300 anos nos deixou o atomismo de que falei nos argumentos iniciais. O epicurismo preconiza a virtude não como um fim em si mesmo mas como o meio de atingir a felicidade humana. A justiça, para o ateu Epicuro, seria um instrumento indispensável na obtenção dessa felicidade. A máxima de Epicuro, transmitida por Diógenes Laercio, “O direito natural é uma convenção utilitária feita com o objectivo de não nos prejudicarmos mutuamente”, afirma o carácter essencialmente mutável e convencional que o epicurismo atribui à justiça. O epicurismo, uma filosofia sem deuses pela qual muitos deram a vida, foi o precursor do contrato social, o motor da construção de uma sociedade melhor, mais livre e mais justa.

Argumentos finais

Sim thumb-membro

Alfredo Dinis, sj

Professor Associado da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Catlica Portuguesa

Não thumb-membro

Palmira Silva

Professora Auxiliar do Departamento de Engenharia Qumica e Biolgica do Instituto Superior Tcnico

 

A ideia de que a metodologia científica é a única via para um conhecimento fiável, tem a sua origem no neopositivismo do Círculo de Viena em finais do século XIX, inícios do século XX. Com base nesta tese, os neopositivistas negaram qualquer legitimidade não só à teologia como também à filosofia. Estas ideias divulgaram-se sobretudo nos países de língua inglesa e tiveram uma generalizada aceitação nas grandes universidades americanas, que acolheram muitos dos membros do Círculo na sua fuga da perseguição nazi. No entanto, na segunda metade do século XX, esta tese, bem como as demais teses neopositivistas, foram critica e profundamente revistas.

Apesar disso, ainda hoje, alguns dos cientistas ateus mais conhecidos, sobretudo no campo da física, continuam a repetir a tese neopositivista que legitima apenas a metodologia científica e, como consequência, atribui tanto à filosofia como à teologia um valor nulo. Alguns exemplos: S. Hawking (The Grand Design), S. Weinberg (Dreams of a Final Theory) e L. Krauss (A Universe from Nothing). Neste caso, como em muitos outros, não é suficiente ser-se famoso para se ter razão.

A ideia de que a ética ou é justificada “por razões intrínsecas”, como afirma a Profª Palmira, seja o que for que esta expressão signifique, e não pela vontade de Deus, pressupõe um dualismo que separa as razões de Deus das razões da Humanidade. Mas por que razão não deverá Deus querer para os seres humanos o que é melhor para eles? Será que a omnipotência e a omnisciência divinas implicam necessariamente arbitrariedade divinas? Não.

Não vale a pena a Profª Palmira atribuir-me afirmações que não fiz, como as três seguintes:

“o Alfredo Dinis [concorda] no essencial com a minha análise sobre a origem comum de ciência e religião, a tentativa humana de explicar o Mundo, e a sua posterior divergência conflituosa, nomeadamente no que diz respeito ao cristianismo. “

Não, não concordo com esta afirmação, que nunca fiz.

“[O Alfredo] concorda igualmente com o facto de as ciências exactas terem “empurrado”, à força de muitos embates, a interpretação religiosa do mundo para o perímetro da nossa ignorância.”

Não, não concordo com esta afirmação, que nunca fiz.

“O Alfredo deixa subentender … que a prova da existência/não existência de Deus seria demonstração, necessária e suficiente, da compatibilidade/incompatibilidade de ciência e religião.”

Não, não deixo subentender, dado que nunca afirmei que existe alguma prova inequívoca da existência de Deus.

A questão do atomismo e dos problemas que a Profª Palmira levantou sobre a transubstanciação é uma questão tão ultrapassada que não se compreende que seja considerada um ponto fundamental do conflito entre ciência e religião. O atomismo foi aceite há muito pelo Cristianismo, mas isso não obrigou os teólogos a mudar o quer que fosse na doutrina tradicional sobre a transubstanciação.

Nunca entendi através de que manifestações Deus convenceria da sua existência os não crentes, principalmente os cientistas e, [sobre]naturalmente, a Profª Palmira. A contraposição sistemática entre natural e sobrenatural, como também entre físico e metafísico, imanente e transcendente, pressupõe que os dois termos da relação correspondem a duas realidades incomensuráveis. Mas não. Trata-se duas perspectivas diferentes de uma mesma realidade.

Segundo os não crentes, sobretudo os cientistas, os seres humanos habitam um planeta insignificante, perdido entre milhões de outros planetas, numa galáxia que é apenas uma entre uma quase infinidade de outras galáxias, surgiram aqui por um mero acaso, não se distinguem fundamentalmente dos demais seres vivos, acabarão como todos em pó e cinza. Ainda assim, muitos de nós, efémeros seres que por aqui passamos sem saber porquê nem para quê, consideramo-nos suficientemente super-inteligentes para afirmar que o actual universo não teve a sua origem num ser super-inteligente. É o caso do famoso Richard Dawkins.

No final de um debate com Francis Collins, Richard Dawkins afirmou que um criador que tivesse criado um universo tão complexo como o nosso, teria que ser super inteligente’, nunca o carpinteiro de Nazaré.

Dawkins sabe como Deus deveria ter procedido, que género de universo deveria ter criado em vez do actual para nos convencer da sua existência. Coloca-se assim ao nível desse ser super-inteligente. A Profª Palmira, certamente mais famosa do que eu, parece estar de acordo com o famoso Dawkins, uma vez que afirma: “Sabemos hoje que o nosso é um universo natural sem quaisquer manifestações ou interferências sobrenaturais perceptíveis.” Do famoso rei espanhol D. Afonso XI diz-se que terá afirmado: “Se Deus me tivesse consultado antes de criar o mundo teria recebido alguns bons conselhos.” Mas fama e razão nem sempre deram a mão.

 

No contraditório, o Alfredo Dinis contesta argumentos que não os meus, que pressuponho não ter lido. Listo os argumentos que o caro Alfredo contradita que não só nunca usei como não são argumentos referentes ao tema que deveríamos discutir, se é possível conciliar ciência e religião.

1- Ao escrever “Galileu e o seu conflito com a Inquisição é exemplo de citação obrigatória” parece não ter reparado que apenas citei Galileu como exemplo dos muitos cientistas cristãos que tentaram, “infrutiferamente, conciliar a ciência que faziam com a fé que professavam”.

2- Também não é certamente meu o “argumento que considera que o discurso científico é o único fiável, e “que ‘conhecimento’ e ‘conhecimento científico’ são semanticamente equivalentes”. Aliás, bem pelo contrário, fiz questão de não só de frisar a importância de outras áreas do conhecimento humano no próprio desenvolvimento da ciência1 como demarcar áreas nas quais a ciência não tem nada a dizer porque claramente fazem parte do domínio de outras disciplinas, nomeadamente a existência de deuses cuja discussão compete à filosofia.

3- Nem nos argumentos iniciais nem no contraditório sequer mencionei evolucionismo muito menos insisti “no argumento de que há uma incompatibilidade entre o evolucionismo biológico e a religião”.

4- Finalmente, não percebo porque é refutado o “argumento de que a existência de Deus se baseia numa impossibilidade lógica”, outro argumento que nunca utilizei, nem considero que tenha cabimento no tema proposto, mas que deu pretexto para o resto do contraditório devotado a mostrar a “necessidade” de um deus.

O tema que deveríamos discutir, se é possível conciliar ciência e a religião, é apenas abordado no último parágrafo em que a religião é listada, a par da ciência e da filosofia, como uma das áreas fundamentais da existência humana. Para o Alfredo Dinis, que aparentemente ignora que há uma percentagem não despicienda de pessoas para as quais a religião é irrelevante, o facto de os crentes considerarem a religião aquilo sem o qual nada é possível é argumento necessário e suficiente para a conciliação de ambas, para que não se empobreça a existência humana. Mais uma vez, existirão certamente muitos que considerarão a astrologia, a alquimia ou afins como uma área fundamental da sua existência humana, sentimento que não as torna conciliáveis com a ciência.

O ser humano é capaz de conciliar as coisas mais incompatíveis entre si e a longa lista de cientistas crentes que o Alfredo enumera como argumento de autoridade não o é de facto. O facto de Newton ter sido um alquimista convicto não torna a alquimia compatível com a ciência nem Linus Pauling ter sido certamente um dos químicos mais determinantes do século XX torna científica/respeitável a terapia ortomolecular. O que se discute é a ciência e a religião em si não se os crentes podem conciliar os modelos científicos com a visão religiosa do mundo.

Como o moderador referiu, de um ponto de vista estrito, decorrente da própria etimologia da palavra, apenas da união ou integração de ambas se poderia falar em conciliação efectiva. Ora essa união ou integração é impossível porque, epistemicamente, ciência e religião são totalmente incompatíveis. A ciência, a história ou a filosofia, são caracterizadas pelo método com que investigam os aspectos da realidade na sua área, sempre um conjunto de procedimentos epistemicamente virtuosos, e pelo facto de as suas crenças serem sempre crenças justificadas. Na religião, aquilo que é descrito como método de justificação de crenças (tradição, autoridade, visões místicas, inspiração divina, experiências pessoais, etc.) é epistemicamente inválido. Ver para crer poderia descrever a ciência; crer sem ver a religião. Por isso não há (re)conciliação possível entre ambas.

1No seu estado embrionário, a ciência era a Ars Scientia, a arte da ciência implícita, por exemplo, nos Contos de Cantuária de Chaucer que, para além de um indiscutível conhecimento da poética europeia, mostram um conhecimento considerável sobre outras «artes» , como sejam medicina, ornitologia, alquimia ou astronomia.

Este ecletismo artístico foi aliás o grande impulsionador da revolução do pensamento que permitiu a emancipação da ciência.  No livro «Arte e beleza na estética medieval», Umberto Eco explica-nos que a Idade Média, caracterizada por muitos autores como um período marcado por insensibilidade estética, na realidade contempla reflexões que contribuiriam para o Renascimento. Para Eco, o Renascimento não é uma negação da cultura medieval, mas apenas de alguns dos seus aspectos, entre eles os estéticos, já que «falta à Idade Média uma teoria das belas-artes, uma noção de arte como a concebemos hoje, como produção de obras que têm por objectivo primeiro a fruição estética, com toda a dignidade que esta destinação comporta». E foi a arte - e não a ciência - a grande impulsionadora da transição cultural renascentista, embora este impulso seja indissociável dos avanços no pensamento científico e na prática tecnológica.

Anncio do vencedor

O debate mostrou que a relação entre a ciência e a religião envolve muitos aspectos e não é simples encontrar uma resposta unânime à questão: é possível conciliar ciência e religião?

Na discussão entre Alfredo Dinis e Palmira Silva, venceu o não. Assim, os leitores parecem estar convencidos de que existe uma incompatibilidade intrínseca e intransponível entre as metodologias utilizadas para a interpretação da natureza pela ciência e pela religião. Enquanto a ciência se baseia em factos e no método científico, criando teorias e renovando-se em face de novas informações, a religião assenta numa crença não justificada.

No entanto, ao longo do debate também se chegou a um consenso: apesar de ser irreconciliável com a ciência, a religião é definitivamente compatível com a experiência humana da realidade. De facto, a vida das pessoas é mais abrangente do que a pura explicação racional e científica do mundo. Cada indivíduo traça então o seu caminho de acordo com as suas crenças, sentimentos, vontades, medos e conhecimentos. Pode ter então comportamentos e explicações por vezes irracionais, mas sem dúvida interessantes e enriquecedores.

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Comentários (25)

  • Ivani Medina 10 Outubro 2015, 13:26 GMT
    Quando iniciei minha pesquisa diletante acerca da origem do cristianismo, eu j tinha uma ideia formada que pode parecer esdrxula: a perseguio aos judeus. Portanto, nada de Bblia, teologia e histria das religies. Todos os que haviam explorado esse caminho haviam chegado concluso alguma. Contidos num cercadinho intelectual, no mximo, sabiam que o que se pensava saber no era verdade. isso o que a nossa cultura espera de ns, pois no tolera indiscries. Como o mundo no havia parado para que o Novo Testamento fosse escrito, o que esse mesmo mundo poderia me contar a respeito dessa curiosidade histrica? Afinal, o que acontecia nos quatro primeiros sculos no mundo greco-romano, entre gregos, romanos e judeus? Ao comentar o livro Jesus existiu ou no?, de Bart D. Ehrman, exponho algumas das concluses as quais cheguei e as quais o meio acadmico de forma protecionista insiste ignorar. http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/paguei-pra-ver
  • Bartolomeu 15 Setembro 2015, 21:14 GMT
    "A religio foi a primeira tentativa de interpretao do mundo e dos fenmenos da Natureza." Qual a fonte desta afirmao?
  • A. Janela 17 Maio 2014, 17:25 GMT
    s vezes no d para entender como as pessoas raciocinam! Vem-se por a afirmaes de que o cristianismo mais incompatvel com a cincia que outras religies: o islamismo, o hindusmo... Tem piada! Vejamos um terreno em que crescem plantas e outro em que no cresce nada. Qual incompatvel com as plantas? Pois . Onde que floresceu a cincia? No foi nessas religies ditas compatveis. Foi no terreno cristo. Ser que entendo os vossos conceitos de compatibilidade? Dos islamitas e e hindus no se fala em conflitos com a cincia. Mas porque l no h cincia. Sem cincia no h conflitos visveis. Muitos no percebem que so crenas que no permitem o desenvolvimento das cincias. Esta observao de que a cincia nasceu em terreno cristo vem do oriente, de um budista japons.
  • a. janela 17 Maio 2014, 14:41 GMT
    espantoso, como um caso pontual, ao longo de 2.000 anos de desenvolvimento, a organizao que mais contribuiu para a civilizao ocidental, a Igreja Catlica, um caso muito bem explorado pelos seus detractores, levou a esta situao de pseudo-conflito com a cincia. claro que muito contribui para isso o desconhecimentos generalizado da histria do conhecimento e da cultura. Um bom livro para ler quem quiser informar-se : O que a civilizao ocidental deve Igreja Catlica de Thomas Hood
  • a janela 17 Maio 2014, 12:44 GMT
    Porque h, ou pode haver conflitos entre pessoas, ser que no pode haver conciliao? Porque h assassinos por a, ser que as pessoas no se podem entender? S isto mostra como a concluso pelos votantes acaba por ser uma falsa sada.
  • A. Janela 17 Maio 2014, 12:27 GMT
    Para comear, este assunto no cientfico, mas filosfico. Parece-me que o texto de Dinis est muito melhor conseguido que o da Palmira. Mostra um conhecimento muito melhor da questo. O texto da Palmira est cheio de afirmaes gratuitas e falsas, como costumeiro na maioria das questes deste gnero. Infelizmente, hoje muito vulgar ouvir pessoas falar do que no sabem. Mesmo pessoas ditas responsveis e formadas. Tenho lido alguns livros deste gnero, de ataques Igreja ou religio, e o que vejo sempre o mesmo: cheios de imprecises, meias verdades ou mentiras declaradas. Alguns cientistas parecem pensar que a sua cincia lhes d direito a falar de tudo, com os seus gales cientficos. Embora em muitos assuntos no saibam mais que o vulgo. E vo repetindo afirmaes sobre assuntos que ouvem, sem se esforarem por estudar nenhum assunto. Idade Mdia, Inquisio, Cruzadas, Galileu, Darwin so assuntos de conversa de toda a gente e de estudo de muito poucos. So assuntos inquinados por afirmaes gratuitas e mentiras, desde o sec. XVI e sobretudo o sc. XIX, quando dos ataques dos protestantes, dos iluminados, historiadores do sc. XIX, com a sua viso romntica. Alguns ataques so infames, a que se juntam hoje novas foras contendoras: comunistas, muulmanos, libertrios A Palmira fala dos diferentes mtodos entre a religio e a cincia. Pacfico. Naturalmente, so diferentes os mtodos, no s entre elas, mas tambm entre as vrias cincias. O mesmo mtodo cientfico no serve para tudo. E muito menos para cincias diversas, ou outras espcies de conhecimentos. O que no quer dizer que no haja rigor e lgica Hoje, a cincia j no pode falar como a Palmira o faz. Depois das questes levantadas pela mecnica quntica, sobretudo do princpio de incerteza da Heisenberg, no parece muito cientfico falar assim. Hoje, a cincia no fala em verdade, e at alguns tericos da cincia, dos poucos que hoje se habilitam a falar com rigor da cincia em geral, dizem que a noo de verdade nem uma noo prpria da cincia. Alis, a Palmira chega a abordar este tema. S que depois esquece e volta presuno cientfica da verdade. Afirma que a religio assenta na f酔 No s isso. E vai fazendo definies de f ao seu modo. Mas a f no bem como a entende, o que outra das vulgaridades de alguns cientistas actuais. Quando em tempos li um livro de um desses cientistas famosos sobre o tema (Bertrans Russel Porque no sou cristo) fiquei pasmado pela vulgaridade dos raciocnios, que nem esse nome merecem. Depois, mais tarde, acabei por descobrir que o livro em que ele se tornou famoso (Principia Mathematicae) no s dele. Foi escrito em parceria com outro matemtico. B. Russel ateu; mas o outro matemtico, Whitehead, um cristo americano. J ouviram falar dele? isso o que acontece normalmente. Nestes assuntos, quem ateu tem muito mais divulgao. E, normalmente, ficam-se por ataques, sem provas, o que grave em quem se apresenta como cientista. , de facto, o que acontece com os livros anti-religio dos ateus actuais, como Dawkins As pessoas servem-se dos seus pergaminhos para se meterem noutros campos. Tem todo o direito a raciocinar sobre o que querem, s que em assuntos em que no esto habilitados, no devem invocar esses pergaminhos. F acreditar em algo sem razes. Isso o que a Palmira diz. Mas no quer dizer que assim seja. A propsito: j provaram que Deus no existe? Ento porque o afirmam? Fica mal a cientistas fazerem afirmaes sem provas! Porque afirmam que no h conciliao se ela feita por muitos cientistas? Reparem que no falo de gente vulgar, mas de cientistas. Se h 41% de cientistas que se dizem no crentes, h outros tantos que se dizem crentes. Isso escamoteado, tanto no texto da Palmira como no do moderador. E lembremos um dos crticos dos no crentes que se fartam de chamar nomes aos crentes: esses senhores esquecem que h tambm muitos cientistas crentes. E, no alto do seu pedestal, apelidam os seus colegas de ignorantes. Essas percentagens resultam de inquritos feitos no incio e no fim o sc. XX. No fim do sc., a percentagem de no crentes subiu um pouco. Mas isso no de admirar, tendo em conta pelo menos dois factores: a grande propaganda feita pelos no crentes, que tem sua disposio meios poderosos, a par da ignorncia de muitos cientistas e outros formados acerca destes assuntos; e o prprio inqurito que especificava demasiado a pergunta, referindo-a exclusivamente a um Deus pessoal. E naturalmente, muitos crentes ficaram de fora, como por exemplo Einstein, que sendo crente num Deus criador, o considerava no pessoal, apesar de ser judeu. Estas votaes no servem para o tema em questo. As votaes so boas para tomar decises em democracia, mas no para provar raciocnios. A verdade no uma questo de maiorias. No se resolve por nmero de votantes. Se assim no fosse estaria provado que Deus existe: 85% da populao mundial crente. Depois, afirma que a cincia se baseia em factos. Ora, no isso que dizem os tericos das cincias. Elas baseiam-se nas observaes e conhecimentos de factos; no nos factos em si mesmos. Isto, porque no sabemos se os conhecimentos que temos dos factos correspondem realmente aos factos. o que diz a teoria actual das cincias. A cincia universal e as religies so muitas A cincia universal? No me parece. H civilizaes em que ela nem se desenvolveu. Ela cresceu na civilizao judaico-greco-crist e em mais lado nenhum. Depois, no h a cincia, mas as cincias, que so muitas e variadas. E nem todas se desenvolvem exactamente pelo mesmo mtodo; que at foi desenvolvido por uma filsofo, que muitos cientistas gostam de ridicularizar: Aristteles. A cincia uma abstraco de pensamento E hoje so poucos os cientistas que se habilitam a fazer uma viso geral da cincia, pois normalmente esto demasiado absorvidos pela sua especialidade que no lhes deixa tempo nem capacidade para muito mais. E torna a repetir: religio e cincia desenvolveram-se sem nunca conflurem. Falso. Os problemas entre religio e cincia so mais um mito bem desenvolvido, espalhado e repetido por aqueles que o defendem, mas no uma realidade. J vimos que s comearam a aparecer com a propaganda iluminista e romntica, exagerando determinadas discusses que so normais entre muitas cabeas. Aqueles mitos j referidos sobre a Idade Mdia, Galileu esto cheios de imprecises e mentiras, fomentadas por determinadas correntes, sobretudo para servir de ataque Igreja Catlica. Os investigadores actuais isso que dizem. At era bom fazer uma investigao para saber quem lucra com tais mentiras. Fala da Renascena com ambiguidade, primeiro como uma poca de cincia e, no fim, contradiz essa ideia. De facto, a Renascena no uma poca de desenvolvimento da cincia, mas sim das artes. E sabemos como a Igreja colaborou com esse desenvolvimento, sendo mecenas de muitos artistas. Mas esse ponto , talvez, o menos controverso. Todos sabem o papel no desenvolvimento das artes que a Igreja teve. J no conhecem outros aspectos. Mas hoje bem claro que foi a Igreja Catlica que mais contribuiu para o desenvolvimento da civilizao ocidental. Leiam um pouco de histria e vero. Muitos dos cientistas da histria da cincia, desde sempre, so religiosos ou padres. Se no fosse o papel da Igreja, com os seus mosteiros e bispados, a civilizao ocidental teria colapsado com as invases brbaras. No seria a nica vez na histria que isso acontecia. J na histria da Grcia o mesmo aconteceu, pensa-se que com a invaso dos Drios. Houve trs sculos em que o conhecimento quase despareceu. Para alguns brbaros que invadiram o Imprio Romano, matar era uma honra Foi tambm na Renascena, e no na Idade Mdia, que se intensificou a famosa caa s bruxas. Embora muitas vezes erradamente associada Inquisio, foi sobretudo fora do mbito da Inquisio, nos pases de tradio germnica, que ela aconteceu, pois era um costume germnico. Teve alguma influncia por todo o lado, nessa poca de diminuio da f crist. J referi que h muitas ideias erradas sobre a Inquisio. Uma delas essa da caa s bruxas. Uma das razes da fundao da Inquisio medieval foi exactamente combater essa perseguio, que acontecia por vontade popular ou de chefes polticos. Vejam o que ainda acontece nos pases muulmanos, a perseguio e morte que do a muitos cristos, de que os nossos meios de informao nem falam (O ano passado morreram mais de 100.000. No sc. XX houve mais de 40.000 mrtires catlicos). de uma espcie de Inquisio que eles esto a precisar, para no permitir que a populaa actue livremente, como est a acontecer. Os cientistas no ligam a f, a religio e a cincia? Coprnico era cnego; Galileu sempre se considerou bom catlico e morreu como tal, assistido por um sacerdote, e nos conflitos com a Inquisio (que no propriamente a Igreja, como sempre confundem) at deu algumas lies de interpretao teolgica, no aceites, verdade, porque ele no provou nada (contra o que muita gente pensa); Kepler e Newton no viveram esse conflito e foram eles que, de facto, estabeleceram o sistema heliocntrico e, na continuao de Galileu, deram as bases ao seguimento da cincia. Newton tinha mesmo conscincia de que o mundo era explicvel cientificamente por ser obra de um criador, diferenciando Criador e criatura segundo a f crist, e no separava de modo nenhum a cincia da f. A emancipao das cincias foi-se fazendo, do mesmo modo como se diz tambm que foi da filosofia que as cincias nasceram. Houve alguns conflitos? Certamente. H sempre. Ainda hoje os h. Nem todos os cientistas aceitam determinadas coisas. Alguns atribuem essa divergncia f. H muitas razes para haver divergncias. A unanimidade no existe em cincia. Embora a teoria do Big Bang (nome que comeou por ser uma referncia trocista) seja hoje maioritariamente aceite, nem todos os cientistas esto de acordo. E, para estudar divergncias, no h subsdios As referncias ao aborto e casamentos de pessoas do mesmo sexo so descabidas e no sei a que propsito aparecem, pois no tem nada a ver com o assunto. Ser para angariar votos? Ao longo dos sculos, as cincias e a religio fizeram o seu percurso divergente. Falso, como j dito. As cincias nasceram da filosofia, foi no cadinho do ambiente cristo que apareceram e muitos dos seus praticantes foram e so religiosos. Durante alguns sculos, por exemplo, a astronomia (no astrologia) teve como principais cultivadores os jesutas, ao ponto de ser s vezes chamada uma cincia dos Jesutas. H 30 nomes de jesutas na orografia da Lua Na sismologia, o mesmo Muitas das disciplinas hoje cultivadas nas universidades tiveram como fundadores, no alguns cientistas, como foi pensado at h bem pouco tempo, mas religiosos da Idade Mdia e tempos modernos, como o caso da economia, direito internacional, muito tempo atribudo a Adham Smith, mas que nasceu na universidade de Salamanca, ao tempo dos problemas na descoberta da Amrica com os amerndios Depois afirma que a f a crena injustificada e a cincia a crena justificada Ainda bem que afirma que a cincia crena, pois como j referi, no a verdade absoluta O atesmo tambm uma crena! Pelo menos enquanto no provarem a inexistncia de Deus. Coisa que, no sei se j reparou, de todo impossvel. Das provas da existncia de Deus, a que S. Toms de Aquino chamava apenas vias para atingir o conhecimento de Deus, no se pode dizer o mesmo. Provar que Deus no existe impossvel; mas provar que existe j no a mesma coisa. Quando se fala de provas, no h s as cientficas. Muitas vezes pedem provas cientficas da existncia de Deus, como se Deus fosse algo de que se pudesse falar assim. No assunto de cincia e, portanto, no pode haver provas cientficas da existncia de Deus. A cincia debrua-se apenas sobre o mundo material observvel e experimentvel. o seu objecto de estudo. Deus no pertence a esse campo. A cincia no se pode debruar sobre Deus, a no ser como hiptese explicativa, quando j no tem outras. Como aconteceu no passado. E sabemos que no h provas, simplesmente porque no pode haver, pois o assunto no susceptvel de provas, no assunto cientfico; a no ser ao modo de prova pessoal. Pois que, alm das provas cientficas, h a prova pessoal, de algum modo, intransmissvel. Nas cincias humanas e na religio, h coisas de que se pode falar e, sem poder haver provas cientficas repetveis, pode haver provas pessoais, as experincias pessoais, que so provas para cada um. At no campo fsico temos coisas que no podemos provar aos outros, mas so provas pessoais. No posso definir o sabor de uma laranja a quem no sabe o que . S depois de o provar que a pessoa sabe o que . Tem que haver uma prova pessoal, para se saber do que se trata. Em religio algo parecido. Se no se provar pessoalmente, no se sabe o que . algo como ver uma catedral por fora. Algumas catedrais, por fora, no so nada atraentes. Mas, por dentro! Ah! outra coisa! uma experincia no transmissvel, apenas pessoal. E a partir da, pode-se falar a quem j provou. Quem no provou no percebe. O conhecimento cientfico no tudo; apenas uma das formas de conhecimento. Para alm dele h a arte, a tica e a religio. Imaginemos uma obra de arte, uma msica, uma cano ou uma sinfonia, por exemplo. Descrita cientificamente levar-nos-ia a falar de vibraes do som Que seca! Ficaramos a saber o que essa msica, essa sinfonia? No, s ouvindo. E, melhor, ouvindo e tentando perceber Mas, s o ouvir j outra coisa! A Palmira gosta muito de falar do permetro da nossa ignorncia e era bom que tentssemos saltar desse permetro da nossa ignorncia colectiva, que anda muito reduzido, por culpa de muita gente que se acha muito sabedora. Exemplo: Ainda h bem pouco tempo, o hoje Papa emrito Bento XVI, recebido pela imprensa, quando foi eleito, de um modo asqueroso, tentou o esclarecimento em muitas coisas Um dia, logo depois da eleio e em tempo de frias, foi cumprir a promessa a um amigo que o convidou a ir visitar uma imagem famosa em Itlia. Aproveitou, como sempre, para fazer uma reflexo sobre a imagem ou a ideia que temos de Deus, porque uma das coisas que anda muito mal compreendida, ainda com ideias do Antigo Testamento, da poca do Calcoltico ou Idade do Cobre. Ele, ento, procurou melhorar essa ideia que temos de Deus. Pois a notcia que apareceu numa das nossas televises foi sobre o chapu que o Papa levava! Sobre a reflexo, nada! Porque no podemos crer simultaneamente no heliocentrismo e no geocentrismo conclui que no pode haver conciliao entre cincia e f. Como se fosse a mesma coisa! So das tais afirmaes para embasbacar o patego, mas com lgica zero. Simplesmente, porque parte do princpio que so inconciliveis. D como provado o que preciso provar. Assim no vale! O heliocentrismo e o geocentrismo so contraditrios, mas no contrrios. Mas a f e a cincia falta provar. E pe em causa a conciliao vista por pessoas que tem muito mais formao para o fazer, uma formao muito mais abrangente, e que vivem essa conciliao. Isso prova que ela possvel. E no me parece que a Palmira tenha uma formao que lhe d habilitaes para a pr seriamente em questo. E mostra-o bem na argumentao que usa, repetindo, repetindo o que outros da mesma igualha dizem. Repito: a cincia apenas uma parte do conhecimento humano. E, se calhar, nem a mais importante! E repete: cincia e religio so inconciliveis, porque tem metodologias antagnicas. No creio. So diferentes, como so as metodologias das vrias cincias, mas no antagnicas. So conciliveis, so vises complementares para a vida humana, e de modo nenhum antagnicas. E que a f no precisa de confirmao A afirmao sua; mas no dos crentes conscientes. Afirma que as verdades da religio foram todas refutadas cientificamente. Gostaria de saber quando, onde e por quem? Fala da proibio do atomismo no Colgio das Artes em Coimbra. Naquele tempo a influncia da Igreja era grande, devido histria dos sculos anteriores, em que teve que tomar as rdeas da sociedade perante os brbaros, e portanto, natural que ela ditasse regras. Mas isso um passado longnquo. E hoje no acontece o mesmo ainda, em certos sectores da sociedade? E noutras sociedades em que os ateus dominam Olhe para os pases no ocidentais para ver o que l acontece ainda hoje No sc. XIV, com Autrcourt, tambm no h um conflito entre a cincia e a f. Ele at era cnego tambm. E repete a afirmao de que a conciliao foi tentada por cientistas sem nenhum sucesso. Falso. No isso que se v na histria da cincia. Essa no-conciliao s existe na cabea de quem no capaz de ver de outro modo. Apresenta algumas citaes de outros descrentes, mas que j esto perfeitamente ultrapassados, pelas mesmas razes. Sobre as clulas estaminais Ser que, se a cincia quiser fazer o que os nazis fizeram aos judeus, servindo-se deles para fazer experincias cientficas, deveramos aceitar isso por ser cincia? Pois . que as clulas estaminais no so todas iguais. H clulas estaminais que so embries humanos E ser que se pode fazer tudo com eles, como alguns querem? No voltaramos a dois mil a anos atrs, ao tempo em que o pai de famlia grego ou romano podia rejeitar os filhos vontade e mandar mat-los? Ser que podemos brincar vontade com embries humanos? Ou abortar? Ser que isso um conflito entre f e cincia? A moral, de facto, est muito ligada religio, pois foi com ela que se desenvolveu; mas hoje no preciso ser religioso para ter conceitos morais firmes. E h muitos ateus que os tm. E no vo nessa da libertinagem. que, tambm em cincia, no vale tudo! O facto que apresenta para dizer que no h conciliao entre f e cincia falando de Newton, que aliava tambm a alquimia primeira vista, parece um bom raciocnio! Mas ser? Hoje sabe-se que a alquimia e outras coisas no era caminho a seguir. Mas hoje que se sabe. No naquela altura. Mas ainda no foi provado, como querem afirmar alguns, que a religio tambm no caminho! Quando provarem isso, digam. Era tambm o que pedia o cardeal Belarmino a Galileu. Enquanto no houver provas no apresente o caso como provado, mas apenas como hiptese. S que Galileu preferiu insistir em confrontar a Inquisio com a sua viso teolgica. E foi a, nesse terreno, e no no cientfico em que no tinha provas, que foi condenado. Fala de teofanias mas saber o que so? No parece, pois v tudo com olhos materialistas. Os milagres esto em profunda contradio com a cincia. Saber o que so milagres e o que a cincia. Hoje a ideia de que a cincia se baseia em factos est abandonada A cincia no um conhecimento absoluto. E cita Mercken em afirmaes mais uma vez falsas. O esforo para conciliar feito s pelo cientista? No me parece. Os telogos tm clarividncia para compreender que so antagnicas? Os telogos no iam ter uma ideia que anularia o seu trabalho, sobretudo por uma afirmao que est por provar, embora que vocs dem como provada. Quanto ao bem moral j algum respondeu muito bem. A tica Foram as religies que a trouxeram e no as cincias. No sequer assunto cientfico. Infelizmente, s vezes, a tica tem que se levantar contra pretenses de alguns cientistas que, sob pretexto de fazerem cincia, se intrometem noutros assuntos. Deus no determina autoritariamente que a vida tem sentido. A afirmao diferente. Deus que d sentido vida e a todo o universo. As afirmaes sobre o empirismo no tem cabimento. E no me parece que algum tenha dado a vida por ele. Na terceira parte, no contraditrio: Galileu no teve conflito interno entre religio e cincia. Parece conhecer mal o caso. Darwin sim, sentiu esse problema, mas no se sabe bem ao certo em que ficou. Tanto afirmou ser crente como agnstico. E o que o levou mais a isso parece ter sido a morte da filha e no a cincia. No entanto, como deve saber, Darwin foi enterrado na Abadia de Westminster. Isso parece-me que prova bem que no houve tanto conflito assim. O que h por a muita deturpao dos factos H gente que s l ttulos e tira concluses erradas. No me parece que a Palmira tenha usado qualquer argumento minimamente convincente. Diz que Dinis recorre autoridade como fundamento para afirmaes; mas ela que o faz constantemente, e repete constantemente as mesmas afirmaes sem provas mnimas. E de facto, a percentagem de ateus mnima no chega a 2,5%; a de agnsticos no chega a 12,5%. Juntos no chegam a 15%. A Palmira diz que no uma percentagem despicienda. Mas ignora que a percentagem de cientistas crentes igual de no crentes que referiu 41%. Afirma que as bases da religio so espistemicamente invlidas. So to epistemologicamente invlidas como as da arte, da moral e do amor. Sem elas no h sociedade que se aguente, embora saibamos que muitas vezes so quebradas. Por acaso, se casada, pediu algum certificado cientfico de ser amada? Dizer que a f algo inadmissvel, como se v, seria quebrar a base da prpria vida. Finalmente cita Umberto Eco e reabilita um pouco a Idade Mdia, mas classificando-a como uma perodo de insensibilidade esttica por no haver uma teoria das artes. Francamente! S quem no percebe nada de arte. desconhecer a arte romnica, as catedrais gticas, uma das maravilhas da histria da arte, e os seus vitrais espantosos, o canto gregoriano, Cimabue, Fra Anglico A arte moderna , em muitos aspectos, semelhante a esse perodo. Classificar a Idade Mdia como idade das trevas, como j referi, desconhecer a fundao das Universidades, onde, apesar do grande permetro da nossa ignorncia colectiva cultivada por alguns, se discutia com muita mais liberdade que hoje em muitos pases do mundo. Ainda h bem pouco tempo, bem j depois do 25 de Abril, era vedado aos professores fazer crticas ao sistema. Acho que ser fcil de entender que nunca haveria Renascena sem Idade Mdia. Quanto ao anncio do vencedor: embora seja apenas por percentagens de votantes, acaba por repetir, mais uma vez, argumentos no provados contra a conciliao, de todo inaceitveis, pois seria invalidar ou desconhecer que essa conciliao feita e vivida e, portanto, no pode ser negada. Ou estaremos a classificar de hipcritas quem a faz, mtodo muito comumente usado por determinadas correntes de pensamento e aco. Enfim, dizer que a religio e a f so inconciliveis com a cincia, como afirmar que o fgado e o intestino so inconciliveis no organismo humano, ou quaisquer outros rgos, s porque tm funes diferentes. Ou a moral com a arte Eu continuo a pensar que so bem conciliveis, como o prova a imensa quantidade de padres da Igreja Catlica que sempre cultivaram o saber e a cincia. s estudar histria para o verificar. At ao sc. XVI, inclusive, s eles se dedicavam a esse aspecto da vida. A religio uma forma de viver a vida e s inconcilivel com o mal. Desde o sc. II, o cristianismo envolveu-se com a filosofia grega, de onde nasceram as cincias, e com ela e a reflexo sobre Deus, trouxe esse conceito que uma dos pilares da civilizao ocidental - a pessoa humana e que se tornou a base de todos os direitos e de toda a moral. por de mais evidente, a no ser para alguns que continuam a assobiar para o ar, o papel iminente que a Igreja Catlica teve no desenvolvimento da civilizao ocidental, na continuao do sistema greco-romano e judaico. Sabia que Clemente, bispo de Alexandria, e director da grande escola de Alexandria, j no sc. II, defendia a interpretao alegrica da Bblia? Coisa que o nosso um Nobel da Literatura no chegou a conseguir! E no sc. V, S. Agostinho continuou defender e antecipar-se a Descartes (sec. XVI) com o seu pensamento: se duvido, existo.? Depois do interregno que foram as invases brbaras, ressalta o papel dos mosteiros de S. Bento (precisamente por isso hoje considerado patrono da Europa), sobretudo a partir do sc. VI, com a introduo do sistema educativo, por Cassiodoro, grande intelectual romano convertido Na histria da cincia aconteceram muitos casos de ultrapassagens polmicas de certos conhecimentos. Refere-se tambm o criacionismo americano versus cientismo... isso mesmo: de um lado, uns que advogam o mesmo que a Palmira cientismo e no cincia; naturalmente, do outro lado, outros advogam um conceito de criacionismo que no defendido pelas principais igrejas, sobretudo a Catlica. Isso est bem claro; mas no no discurso da Palmira. No sei se conhece, mas o caso de Mendel, com as leis da hereditariedade, pode bem ser classificado como um caso-Galileu-ao-contrrio. Quando fez o anncio dessas leis comunidade cientfica no foi bem recebido, porque pensavam que, como era religioso, era contra Darwin. Hoje, naturalmente, essas leis esto integradas na teoria da evoluo. Mas estes conhecimentos histricos no fazem parte dos cursos tcnicos e, sobretudo, de quem ainda mantem uma ideia, no de cincia mas de um cientismo ultrapassado! Enfim, vence um no, como vence naturalmente a iliteracia neste pas beira mar plantado.
  • A. Janela 12 Maio 2014, 21:34 GMT
    Leiam o artigo sobre este assunto de William Lane Craig
  • A. Janela 12 Maio 2014, 21:20 GMT
    Foi precisamente no meio cristo que a cincia se desenvolveu. Porque ser. Parece haver um desconhecimento generalizado da Idade Mdia, mais conhecida falsamente por Idade das trevas. J no ano 2000 uma srie de artigos de investigadores salientou a falsidade dessa viso. Embora haja na Idade Mdia alguns perodos de "trevas", ela no pode ser conhecida s por esse aspecto. A cincia moderna tem as suas razes na Idade Mdia. So os investigadores que o dizem. A falsa ideia foi desenvolvida no sc. XIX, como luta contra a Igreja Catlica. Seria bom que lessem qualquer coisa sria sobre o assunto, para no andarem a repetir falsidades comuns. No com a repetio de erros que se descobre a verdade. Ou s Igreja que gostam de dizer isso? H muita ideias erradas que so constantemente repetidas sobre muitos assuntos, sobretudo da Igreja. A Inquisio e as Cruzadas so o exemplo mximo disso. Os investigadores de hoje dizem que, salvo alguns casos espordicos, o tribunal da Inquisio era muito mais benvolo do que os tribunais civis e era prefervel ser julgado por ela do que pelos tribunais civis ou populares. Isso o que dizem os investigadores. Mas h quem prefira continuar a repetir slogans anti-Igreja.
  • Antonio janela 12 Maio 2014, 21:08 GMT
    Que possvel a conciliao entre cincia e religio fica provado pelo facto de muitos cientistas o fazerem. Se outros no conseguem, no porque isso no seja possvel. O problema parece estar do lado de alguns cientistas ou, sobretudo, repetidores, com falta de conhecimento histrico e filosfico que se e baseiam em afirmaes que ouvem e lhes agradam, mas sem o mnimo de lgica. o caso de algumas definies de religio e cincia feitas por alguns cientistas, com o faz a Palmira. E falam do que no conhecem, repetindo quem no conhece... H muitos cientistas que quanto a este tema so iguais a muita gente vulgar. O seu curso de cincia no lhes deu nada de especial quanto a este assunto. Podem ser bons no seu trabalho cientfico e no perceber patavina. Falta~lhes essencialmente uma base filosfica e cultural para pensar muitos assuntos. Apenas repetem. De facto, se houvesse contradio entre f e cincia, no poderia haver conciliao. Mas no o caso. Pois muita gente sente essa conciliao. Para um cristo isso bsico: Se acredita que Deus criou o mundo, no pode ver contradio entre Deus e o mundo estudado pela cincia. O problema levanta-se quando se fala do que no se sabe, como quando os religiosos se metem em assuntos cientficos e os cientistas em assuntos religiosos sem estarem preparados para o fazer. E parece-me que h muita mais falta de conhecimento histrico e cultural do lado da Palmira, que tem apenas conhecimentos cientficos, do que do lado do Alfredo que combinam muito mais cultura e conhecimento, tanto cientfico-filosfico com o conhecimento em religio. Ser cientista no d crditos para falar de religio. igual a qualquer um. No por ser cientista que se est habilitado a saber de religio e de f. Alguns dos cientistas ateus de que se fala so disso exemplos claros. Dizer que a cincia incompatvel com a religio to verdadeiro como dizer que economia contraditrio com a cultura ou outra coisa qualquer. Infelizmente, as dicotomias, que podem ser boas para reflectir, tambm podem levar a conflitos indesejveis, quando absolutizadas. O caso da alma-corpo uma delas. Essa dicotomia foi trazida pela cultura grega, e til como mtodo de estudo, no de origem bblica, que no as v em separao.
  • Miguel Pano 19 Julho 2013, 7:41 GMT
    Se abordarmos a realidade de acordo com uma viso transdisciplinar da mesma, no h contraditrios (Manifesto da Transdisciplinaridade, Basarab Nicolescu) Porqu? Porque existem diferentes nveis de interpretao da realidade (John Haught, telogo, "Is nature enough?). O clebre exemplo da gua que ferve de John Polkinghorne (fsico e telogo, autor de vrias obras sobre a relao entre cincia e f) claro nesse aspecto. Se ferve porque forneo energia at que se atinja o ponto de ebulio para as condies ambiente, ou porque quero fazer ch, nada h de incompatvel entre ambas as respostas porque esto a nveis de interpretao da realidade distintos. E no deve confundir-se distino com separao, como alertou Alfredo Dinis desde o incio da argumentao. A razo para uma viso mtica e conflitual entre cincia e religio simplesmente esta: uma reduo dos diversos nveis de interpretao do real a um s - a que dada pelo mtodo cientfico. Esta uma viso limitada da realidade, "crena" injustificada, porque se quisermos provar cientificamente que o mtodo cientfico a nica via para a interpretao da realidade, no sei como se faria, sendo isso, sim, revelador do contraditrio inerente viso conflitual entre cincia e religio (John haught, "Science and faith: a new introduction"). A impresso que fica a de que os apologistas da viso conflitual exigem dos que no apoiam essa viso aquilo que no exigem a si prprios. Se no fosse uma viso Crist do mundo, ainda haveria uma convico de que esse e Deus seriam realidades ao mesmo nvel. Logo, ao no considerar Deus como ser entre outros seres e causa entre outras causas, pelo menos no que ao Cristianismo toca, a cincia desejvel. De tal modo que as limitaes da Igreja cincia argumentadas pela Palmira, no tm qualquer sentido ou fundamento histrico, mas antes a viso caracterstica de Alfredo Dinis e outros como eu prprio de que "Mais cincia, melhor religio", qual juntaria a implicao recproca de "mais religio, melhor cincia". Casos pontuais do conflito so meramente expresso de anti-testemunho, e no justificao credvel para reduzir a realidade generalizada a esses. Por outro lado, no considera a evoluo do pensamento associado viso dialogal do relacionamento entre cincia e religio. Assim como todo o trabalho publicado em revistas da especialidade (com peer-review, Theology and Science; Zygon; Science & Christian Belief; Claritas: Journal of Dialogue and Culture), bem como, por exemplo, o recente trabalho realizado no mbito do trio dos Gentios. Assim, parece-me que a grande converso dos no-crentes preconizados pela Palmira no religio, como por vezes parecem sentir - ou "crer" sentir - da parte da argumentao diversa (como a patente em Alfredo Dinis), mas antes abertura do pensamento a alternativas viso conflitual. Pois ... preciso "f" para "crer" que um conflito entre cincia e f corresponde realidade.
  • Alfredo Dinis 22 Junho 2013, 21:06 GMT
    Jos Barreto O sentido de incompatibilidade parece-me claro. Em poltica, por exemplo, ser ministro da economia incompatvel com qualquer outro cargo em que tenha interesses pessoais de carcter econmico, como ser presidente do conselho de administrao de um banco. A argumentao baseada em exemplos, como o de Newton, legtima mas tem um valor limitado, uma vez que se pode sempre recorrer a exemplos que vo tanto na linha da compatibilidade entre cincia e religio, como ma linha da incompatibilidade. A religio e a cincia tm objectivos e metodologias diferentes, por isso dificilmente so incompatveis. O que pode acontecer que tantoo que se afirma em nome da cincia como o que se afirma em nome da religio tenha algum fundamento e alguma verdade, ou sejam falsos. No incompatvel que um astrnomo acredite que as aparies de Ftima tenham sido obra de seres extra-terrestres, mas esta afirmao que procura explicar um fenmeno considerado religioso no tem qualquer fundamento. A cincia procura explicar atravs de leis naturais todos os fenmenos que se observam no universo, incluindo o prprio universo. A religio no procura explicar qualquer fenmeno com base em leis naturais ou em teorias cientficas. Como poderiam ento ser incompatveis?
  • Jos Barreto 22 Junho 2013, 19:55 GMT
    Quando falei atrs nas "balelas" em que Newton acreditou ou activamente procurou, nomeadamente a pedra filosofal e o elixir da vida, podia ter acrescentado que a qumica no sculo XVII estava ainda na sua tenra infncia. No me parece que isso diminua o cientista Newton. Na cincia h muitas hipteses erradas e sempre haver. assim que o conhecimento avana. J quanto crena no apocalipse de Daniel, tratava-se no de uma hiptese a confirmar ou infirmar, mas de f nas escrituras.
  • Jos Barreto 22 Junho 2013, 15:42 GMT
    A pergunta vaga, por isso promove o dilogo de surdos entre religiosos e irreligiosos e pode suscitar respostas aparentemente opostas num mesmo respondedor, p. ex. a minha: sim e no. A resposta depende, entre outras coisas, do que se entende por "conciliar". Ser que Isaac Newton conciliou o seu imenso saber cientfico com as suas crenas religiosas e outras? O homem que desvendou a composio da luz e descobriu as leis da gravidade, do movimento, da ptica, da mecnica celeste (com Kepler) e ainda formulou teoremas matemticos revolucionrios, o homem que assim desvendou importantssimos segredos do Universo tambm era um homem muito religioso (ainda que "hertico"), um crente literal de muitas "verdades" reveladas pelas escrituras, um alquimista teimosamente em busca da "pedra filosofal" e um pesquisador incansvel de balelas como o "elixir da vida". Dele dizem que inaugurou a poca da razo, mas tambm dizem que foi o ltimo mago. Pensador apocalptico, acreditou nas profecias de Daniel e at calculou, com base nelas, o ano do fim do mundo, que seria 2060 (entretanto outro "sbio" corrigiu os clculos de Newton e apontou o ano de 2013, ou seja, o presente ano!) Pergunto: como "conciliou" Newton a sua cincia verdadeira com as suas crenas maradas? As igrejas costumam apontar o seu caso como exemplar da "conciliao" entre religio e cincia. Que ele no deixou de ser cientista por acreditar em balelas, um facto. Mas que tenha conciliado a cincia com crenas irracionais, eis o que me parece completamente falso. E Newton s um caso, entre muitos outros, de cientistas que tambm tiveram uma inclinao para responder com artigos de f a certas interrogaes do esprito ~ frequentemente, ms perguntas, daquelas que no tm resposta, nem agora nem daqui a dez mil anos.
  • Alfredo Dinis 21 Junho 2013, 14:22 GMT
    Se Moncho, talvez tenha interesse em conhecer o que pensa sobre a alma o Papa Emrito, Joseph Ratzinger:

    Ter alma espiritual quer dizer exactamente ser querido, conhecido e amado de modo especial por Deus; ter alma espiritual significa ser-se algum que chamado por Deus para um dilogo ete
    o e que, por isso, capaz, por sua vez, de conhecer Deus e de Lhe responder. Aquilo que numa linguagem mais substancialista, chamamos ter alma, passamos a chamar numa linguagem mais histrica e actual, ser interlocutor de Deus J. Ratzinger, "Introduo ao Cristianismo", Ed. Principia, p. 259
  • Alfredo Dinis 21 Junho 2013, 10:59 GMT
    No meu segundo texto tenho em conta no apenas o que afirmou a Prof Palmira mas tambm o que disseram outros intervenientes no debate.
  • Se Moncho 20 Junho 2013, 19:40 GMT
    O maior conflito entre cincia e religio no est nas cincias sociais seno na neurologia. Hoje em dia, com os conhecimentos que j tem a neurologia muito difcil defender a existncia duma alma imaterial e imortal, independente dos neurnios materiais que conformam o nosso crebro, e que tenha alguma influncia sobre o nosso comportamento.
  • Vasco Gama 17 Junho 2013, 14:19 GMT
    Gostaria de acrescentar uma pequena nota a propsito do dilema de Euthyphro, "o bem moral o porque um mandamento divino, ou se um mandamento divino porque um bem moral", este dilema tem uma soluo bastante simples para a maioria dos filsofos cristos (ou para os restantes considerando Deus, segundo a viso crist de Deus), que este dilema embora faa sentido para a concepo que os gregos tinham da divindade, para os cristos no se trata de um dilema porque as duas proposies no so exclusivas, ou seja para os cristos ambas as proposies so verdadeiras, pelo que o dilema de Euthyphro um pseudo dilema.
  • Vasco Gama 17 Junho 2013, 13:49 GMT
    A D Palmira apenas tm uma ideia vaga preconceituosa e caricatural do que religio, dizendo enormidades desde a sua afirmao de abertura "A religio foi a primeira tentativa de interpretao do mundo e dos fenmenos da Natureza". Depois, tomando o freio nos dentes prossegue pelo texto a fora num galope sem tino e com pouco acerto.

    De modo diverso ao que sugere a D Palmira a religio debrua-se sobre a relao entre o homem e o divino, tentando oferecer ao homem respostas que ele faz a si mesmo ao longo dos vrios milnios da sua existncia sobre questes como o que ser homem?, o que fazemos aqui?, qual o propsito da nossa existncia? questes que so hoje to actuais e to intrigantes como o eram no incio da nossa existncia.

    J a cincia procura a compreenso e descrio da natureza e o aproveitamento dos recursos naturais em benefcio do homem.

    J se v que religio e cincia so coisas distintas, que dizem respeito a reas do conhecimento humano distintos e com objectivos bem diferentes. Poderamos perguntar-nos como possvel ento afirmar que a cincia e a religio so incompatveis, ou de que forma essa hipottica incompatibilidade poderia ser avaliada. Eu tenho dificuldade em responder, mas a D Palmira sugere uma avaliao arqueolgica, atravs da avaliao dessa incompatibilidade, no nos dias de hoje, mas h quinhentos ou mil anos atrs. No digo que no seja um assunto interessante, mas, nesta altura parece-me um pouco ftil e sem sentido. Mas de certo modo podemos tentar fazer esse exerccio, e constatamos que, de facto, no passado a igreja se tentar intrometer em todos os assuntos da sociedade e veremos contributos e a mo da igreja nos mais diversos domnios, tambm na cincia, mas tambm na sade, na educao, na msica, na arte, na literatura, na filosofia, na assistncia social, no sistema legal e no judicial, na culinria, nas instituies hospitalares e penais, ... Como se pode ver a igreja sempre teve uma enorme tendncia para exorbitar as suas funes especficas e meter o bedelho em coisas um pouco mais fteis do que a relao entre o homem e a f. Hoje, podemos dar-nos ao luxo de criticar o passado e desejar que ele tivesse sido diferente, mas a esse respeito pouco podemos fazer e no conseguimos imaginar a nossa sociedade sem esse passado.

    A D Palmira fala-nos de disputas entre ideias (cientficas) em disputas de h quinhentos anos, e ns, naturalmente horrorizados olhamos para essas disputas e, com a perspectiva distorcida e caricatural que dispomos, olhamos para trs horrorizados e abanamos a cabea com alguma incompreenso do que ento se passava. claro que nada disso seria possvel ocorrer hoje em dia, em plena mode
    idade, pensamos ns com agrado. Mas sero estes dias to diferentes assim?. Para avaliar isto mesmo podemos recuar at ao sculo XX e ver o que se passou em regimes de inspirao ateia, como durante o nazismo ou durante o regime comunista russo, podemos tentar observar se de facto o debate de ideias (cientficas) era mais aberto e mais tolerante e facilmente chegamos concluso que no era. Aqui podemos lembrar-nos do episdio do Lysenkoismo, na Unio Sovitica, que um caso clssico da guerras da pseudocincia, em que Trofim Lysenko, procurou opor-se gentica Mendeliana, promovendo a perseguio dos cientistas que defendiam esta teoria, levou a que muitos cientistas fossem afastados, encarcerados ou mesmo mortos. A gentica Mendeliana acabou por ser declarada oficialmente como uma pseudocincia burguesa em 1948 (o que motivou um grande atraso no desenvolvimento da gentica na Rssia).

    Chegado aqui, podia acrescentar mais uma ou outra coisa aos vrios equvocos (que so muitssimos) no discurso da D Palmira, mas no o vou fazer. Para mim muito claro que no h qualquer conflito entre religio e cincia.
  • Lus Faria 12 Junho 2013, 23:08 GMT

    1. Sobre a evolução. A implicação de “a religião ter surgido no decurso da evolução” de certa forma diminui o papel de um todo-poderoso criador. Alfredo Dinis ao defender a “naturalização” da religião sugere que o criador sobrenatural, com todas as características divinas que lhe são atribuídas, criou (também) os seres humanos por forma a pré-determinar a sua evolução – uma ideia anti-Darwin, uma vez que a teoria de Darwin baseia-se na selecção natural sobre variações aleatórias e espontâneas. Somos um feliz mero acaso e se corrêssemos todo o processo evolutivo novamente o mais provável seria que não existissem seres humanos. Neste caso, e com base numa explicação evolutiva e científica, o criador não teria o espelho para onde olhar e admirar-se.

     

    2. Sobre a neuroteologia. É verdade que algum “cientismo” rejeita o sobrenatural para defender o erro contrário de que nós, seres humanos, somos apenas simples partes do mundo natural; de que somos, na essência, apenas organismos. Rejeitar a origem divina do universo em geral não implica defender uma visão naturalística do ser humano, por oposição a uma visão humanista.

     

    3. A crença religiosa só é possível para criaturas suficientemente auto-conscientes e que estão cientes da sua mortalidade – e, neste sentido, um cientista, enquanto ser humano, pode ser crente. Mas a maior parte das pessoas aceita as suas crenças religiosas com pouca ou nenhuma prova; aceita crenças contrárias à evidência; sem estudar diferentes visões; tem a certeza sobre crenças religiosas que são, no mínimo, duvidosas; e aceita estas crenças, não porque são intelectualmente convincentes, mas porque são emocionalmente reconfortantes.

     

    A própria ideia de Deus é uma forma da humanidade responder ao facto de que o mundo faz sentido. Como escreveu Raymond Tallis, esta resposta é extraordinária pelo facto de não ter fundamento na verdade e por Deus ser um “objecto” impossível do ponto de vista lógico. A noção de Deus é contraditória em si mesma: um Deus infinito mas com características específicas; ilimitado mas ao mesmo tempo distintivo relativamente à sua criação; que é um Ser sem ter sido trazido para a existência; que é omnisciente, omnipotente e bom mas simultaneamente tão limitado que é incapaz de afastar o mal; que é inteligente e nada tem que ver com seres inteligentes enquanto os entendemos; etc.

     

    É verdade que não percebemos tudo aquilo que somos (por exemplo, a consciência), nem tudo o que está relacionado com a matéria (por exemplo, os paradoxos da mecânica quântica), mas o reconhecimento destas limitações não deve levar-nos para um conjunto de impossibilidades lógicas, a defesa da quadratura do círculo e um relaxamento dos padrões de racionalidade.

  • Jacinto Sa 12 Junho 2013, 7:26 GMT

    O debate sobre ciência e religião e como o Prof Diniz disse antigo mas esta longe de estar resolvido. Em parte e algo que atrai pessoas para a sua discussão. Eu sou cientista na area da quimica-fisica ha cerca de 12 anos e nunca senti que a minha educação católica interfere com o meu trabalho. Não me considero praticante no sentido que as pessoas falam mas vivo a minha vida baseada em princípios universais que estão enraizados em praticamente todas religiões. O debate geralmente roda a volta da igreja e ciências naturais. No entanto ciência e mais do que a física química e matemática e há mais religiões. Por exemplo nas ciências sociais religião não e vista tão negativamente. Para terminar gostava de dizer que parte da minha investigação centra-se na produção de energia e agua para beber que vão beneficiar todo o ser humano. Acho que os meus princípios religiosos me moldaram para fazer isto em vez de tentar algo que me enriqueça monetariamente

  • Cisfranco 11 Junho 2013, 12:09 GMT
    No h contradio nenhuma entre cincia e religio. Cada uma segue o seu caminho que paralelo em relao ao da outra. Esses caminhos no se chocam nem se encontram nunca. O problema surge quando cientistas ou crentes exorbitam do seu prprio trajecto e se metem no caminho que no lhes diz respeito. Cincia e religio no so incompatveis e a prova disso que h grandes cientistas que so tambm profundos crentes e crentes que so eminentes cientistas. Respeitem-se mutuamente a cincia e a religio e aprendero uma com a outra e sairo todos a ganhar. De resto a aparente dicotomia entre cincia e religio sempre existir, nunca pensaremos todos da mesma maneira, no s neste assunto como em tudo na vida. Portanto em termos simplistas, cada macaco no seu galho...
  • ET 10 Junho 2013, 20:32 GMT
    Atendendo aos argumentos apresentados questiono se a questo no deveria ser " possvel conciliar cincia e religio catlica?", ou pelo menos "religio crist ocidental". A experincia religiosa muito mais vasta que isso. Normalmente no se encontra, por exemplo, grande incompatibilidade entre cincia e budismo, por ex.... E devemos uma boa parte da nossa cincia cultura islmica, que foi, num tempo especfico, uma fora renovadora do conhecimento... No entanto, e curiosamente, precisamente no meio aparentemente mais anti-cientfico, o cristo, europeu, que a cincia mode
    a frutifica. E isso parece-me digno da maior nota.
  • Carlos Albuquerque 10 Junho 2013, 15:51 GMT
    Conviria definir melhor os termos do debate. Religio e cincia so coisas diferentes. E a Palmira d argumentos que indicam que a hierarquia catlica do conclio de Trento era incompatvel com a livre pesquisa cientfica na poca. Como hoje a teologia catlica no pretende definir verdades cientficas, a separao das duas reas pacfica. O Alfredo fala de algo diferente: pode a mesma pessoa ser cientista e religiosa ao mesmo tempo. Parece-me bem que sim, a julgar pela grande quantidade de cientistas com f. Logo, no h propriamente uma contradio entre os argumentos.
  • Paulo Pinto 10 Junho 2013, 15:40 GMT
    Religio e cincia so bvia e necessariamente conciliveis; mal de ambas se no o fossem.
  • Jose da Costa 10 Junho 2013, 15:34 GMT
    Sou estudante em cincia das religies (2 ano) Universidade Lusfona. Sou ateu, militante Comunista, 50 anos, vrios hobbies e aventuras na vida. Vou acompanhar e estudar este debate e sempre que for oportuno participar. Dentro de umas semanas vou convid-los para um debate na Lusfona. Um abrao.